O governo da França anunciou nesta quarta-feira (7) a suspensão do uso de equipamentos de efeito explosivo pela polícia durante manifestações estudantis. A decisão foi tomada após um adolescente de 15 anos perder a mão durante um confronto com agentes de segurança na cidade de Lens, no norte do país.
A determinação partiu do ministro do Interior, Laurent Nunez, que decidiu interromper temporariamente o uso desses equipamentos durante os protestos de estudantes do ensino médio. A suspensão permanecerá em vigor até que sejam esclarecidas as circunstâncias do incidente ocorrido na segunda-feira (5).
Segundo Nunez, há uma “forte possibilidade” de que o ferimento tenha sido provocado pelo disparo de uma bomba de efeito moral, também conhecida como granada de atordoamento.
“Estou suspendendo o uso delas no movimento dos estudantes do ensino médio até que se esclareça o que aconteceu neste caso”, afirmou o ministro.
Ao todo, 18 investigações foram encaminhadas à inspeção-geral da polícia para apurar as circunstâncias dos confrontos e do ferimento sofrido pelo adolescente.
Polícia é acusada de uso excessivo da força
A atuação das forças de segurança durante os protestos vem sendo questionada por grupos de defesa dos direitos humanos, estudantes e setores da oposição política.
Os críticos acusam a polícia francesa de adotar medidas desproporcionais para conter as manifestações, que já se estendem por mais de duas semanas.
O movimento estudantil é motivado principalmente por reclamações relacionadas à deterioração da infraestrutura das escolas, falta de professores, jornadas consideradas excessivas e insuficiência de investimentos na educação.
Dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontam que o desempenho dos estudantes franceses caiu em ritmo superior à média dos países da organização desde 2015.
Mais de 500 escolas permanecem fechadas
Os protestos continuaram nesta quarta-feira (7), com mais de 500 escolas fechadas em diferentes regiões da França.
A paralisação ocorre um dia depois de manifestações terem sido registradas em várias partes do país. Sindicatos também convocaram uma nova rodada de protestos para o fim desta semana.
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, reconheceu que as reivindicações apresentadas pelos estudantes são legítimas. Ao mesmo tempo, classificou a atual onda de manifestações como uma das mais violentas entre estudantes registradas no país nas últimas décadas.
O governo enfrenta dificuldades para ampliar os investimentos reivindicados pelos estudantes em um cenário de baixo crescimento econômico e pressão para controlar a dívida pública.
Entre as principais demandas estão a contratação de mais profissionais, investimentos na recuperação de escolas antigas e medidas para diminuir as desigualdades existentes entre diferentes regiões.
A CGT, segunda maior central sindical da França, anunciou que apoiará a convocação dos estudantes para novos atos nesta quinta-feira (8).
Movimento também ganha força em outros países europeus
A onda de protestos relacionados à educação também chegou a outros países da Europa.
Na Bélgica, estudantes de regiões francófonas organizaram manifestações semelhantes. Em Liège, na Valônia, pelo menos 107 pessoas foram presas neste mês em meio aos protestos estudantis, segundo a agência Belga. Professores também participam de mobilizações e greves.
Em Portugal, a Federação Nacional dos Professores (FENPROF) iniciou em meados de setembro uma greve por tempo indeterminado contra a realização de horas extras. Os profissionais se recusam a cumprir trabalho não remunerado além das 35 horas semanais previstas em lei.
Na Espanha, sindicatos de professores também realizam mobilizações em defesa de melhores condições nas escolas públicas. Em Madri, professores planejam uma greve para 14 de outubro. Entre as reivindicações estão a redução da jornada de trabalho, diminuição do número de alunos por turma e aumento salarial.




