Em uma cena que surpreendeu moradores da capital ucraniana e entusiastas da aviação em todo o mundo, o segundo maior avião cargueiro do planeta deixou o território da Ucrânia pela primeira vez desde o início da guerra. O Antonov An-124 Ruslan, matrícula UR-82073, decolou no dia 11 de julho com destino a Leipzig, na Alemanha, marcando um raro e simbólico voo em meio ao conflito com a Rússia.
Apesar do fechamento do espaço aéreo ucraniano para voos civis desde fevereiro de 2022, a aeronave conseguiu partir discretamente, reacendendo o orgulho nacional em um momento de incertezas. O voo foi confirmado oficialmente pela Antonov Airlines em comunicado divulgado no dia 16 de julho.
De Kiev para o mundo, mesmo sob ataque
Embora a empresa não tenha revelado a origem exata da decolagem, imagens de satélite e dados de rastreamento sugerem que o An-124 saiu do aeroporto de Svyatoshino, em Kiev. Outras fontes apontam Dnipro, no leste do país, como possível ponto de partida. Durante o trajeto, o transponder da aeronave permaneceu desligado até o avião cruzar a fronteira com a Polônia — estratégia que gerou críticas em canais pró-Rússia e levantou teorias sobre o uso de táticas de despiste eletrônico.
Mesmo assim, especialistas consideram improvável que uma aeronave do porte do An-124 – com 73 metros de comprimento e mais de 400 toneladas de peso máximo – consiga operar sem ser detectada. Ainda assim, o voo foi visto como uma demonstração de capacidade técnica e resiliência por parte da Ucrânia.
Símbolo de resistência: “Seja corajoso como Irpin”
Construído em 1994, o cargueiro estava fora de operação desde o início da invasão russa. Seu irmão maior, o lendário An-225 Mriya, foi destruído nos primeiros dias da guerra durante combates no aeroporto de Gostomel.
O Ruslan modernizado recebeu um novo nome: “Seja corajoso como Irpin”, em homenagem à cidade que simbolizou a resistência ucraniana nos combates iniciais da guerra. A atualização da aeronave começou em 2021, com o objetivo de substituir peças de origem russa por componentes fornecidos por parceiros ucranianos e ocidentais. A reforma foi interrompida após o início da guerra, mas foi retomada mesmo sob as ameaças de bombardeios.
Finalizada em junho de 2025, a modernização marca uma virada estratégica para a Antonov Airlines, que agora mira a retomada de operações a partir de sua base em Leipzig. O avião será usado para transporte de cargas militares e civis, em especial equipamentos fornecidos por aliados ocidentais.
Tecnologia de guerra, receita de sobrevivência
De acordo com a Antonov, o An-124 UR-82073 já acumula mais de 21 mil horas de voo e mais de 5.500 operações realizadas. A empresa também informou que todas as demais aeronaves de sua frota estão atualmente em locais considerados seguros, conforme os protocolos internos.
O voo do Ruslan é o primeiro da Antonov Airlines a sair da Ucrânia desde o início da invasão e representa um passo importante não apenas na retomada operacional da empresa, mas também na geração de receita em tempos de guerra.
Atualmente, há apenas 26 unidades civis do An-124 em operação no mundo, conforme dados da Air Charter Service. O modelo, cuja produção já foi encerrada, é utilizado para o transporte de cargas superdimensionadas e é conhecido por sua capacidade de decolagem com até 150 toneladas de carga útil.




