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Edição genética reduz colesterol ruim em estudo e mantém efeito por até um ano

Terapia de aplicação única utiliza tecnologia CRISPR para desativar gene no fígado; pesquisa ainda está em fase inicial e precisa de novos estudos

🕒 Publicado em 03/09/2026 às 08:13

Uma nova estratégia para o controle do colesterol alto está chamando a atenção da comunidade científica. Pesquisadores testaram uma terapia genética de aplicação única capaz de modificar uma região do DNA relacionada ao metabolismo das gorduras e conseguiram manter a redução do colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, por até um ano nos participantes acompanhados.

Os resultados foram apresentados no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia e publicados no New England Journal of Medicine. O estudo envolveu apenas 15 pacientes, que receberam a terapia e foram acompanhados durante aproximadamente 12 meses.

Apesar dos resultados considerados promissores, os próprios pesquisadores ressaltam que a pesquisa ainda está em estágio inicial, voltada principalmente à avaliação de segurança. Uma nova etapa, com um grupo maior de participantes, já está em andamento.

Tratamento utiliza tecnologia CRISPR

A terapia experimental utiliza a tecnologia CRISPR, ferramenta de edição genética que permite modificar trechos específicos do DNA.

Neste caso, os pesquisadores escolheram como alvo o gene ANGPTL3, encontrado nas células do fígado. Esse gene participa da produção de uma proteína que interfere na capacidade do organismo de eliminar determinadas gorduras presentes na circulação sanguínea.

Ao desativar o ANGPTL3, a expectativa é melhorar o metabolismo do LDL e dos triglicerídeos, reduzindo sua concentração no sangue.

A estratégia foi inspirada em pessoas que apresentam naturalmente alterações nesse gene. Estudos anteriores identificaram indivíduos com uma mutação que reduz a atividade do ANGPTL3 e que apresentam níveis mais baixos de colesterol e triglicerídeos, além de menor incidência de problemas cardiovasculares.

A proposta da terapia é reproduzir artificialmente esse efeito protetor.

Redução chegou a cerca de 50% nos níveis de LDL

Entre os participantes que receberam a maior dose avaliada, a atividade relacionada ao ANGPTL3 caiu quase 80%.

Como consequência, os níveis de LDL e triglicerídeos diminuíram aproximadamente 50%. Segundo os resultados apresentados, essa redução permaneceu durante pelo menos um ano de acompanhamento, sem que os pacientes precisassem receber uma nova aplicação.

Para os pesquisadores, a permanência do efeito é um dos aspectos mais importantes observados até agora.

A explicação está no próprio funcionamento da edição genética: ao modificar células do fígado, a alteração pode permanecer nas células que se originam a partir delas. Dessa forma, o efeito produzido pelo tratamento não depende de aplicações frequentes.

Nova possibilidade para doenças crônicas

Atualmente, o colesterol elevado é controlado principalmente por medicamentos, entre eles as estatinas, que precisam ser utilizados continuamente conforme orientação médica.

Uma terapia capaz de produzir um efeito prolongado a partir de uma única aplicação poderia representar uma mudança importante principalmente para pacientes que apresentam dificuldade em manter tratamentos de uso contínuo.

O cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), considera que esse é um dos principais potenciais da estratégia.

Segundo o especialista, tratamentos de aplicação única poderiam reduzir problemas relacionados à interrupção ou à baixa adesão a terapias de longo prazo.

A possibilidade também desperta interesse no tratamento de pessoas que não conseguem controlar adequadamente os níveis de colesterol com as opções disponíveis atualmente, incluindo alguns pacientes com formas hereditárias da doença.

Ainda não é um tratamento disponível

Apesar dos resultados positivos, a terapia está longe de ser uma opção disponível nos consultórios.

O estudo teve apenas 15 participantes e ainda está em uma etapa inicial de desenvolvimento. Antes de uma eventual aprovação, será necessário realizar pesquisas maiores para avaliar com mais precisão a eficácia, a segurança e possíveis efeitos adversos da edição genética.

A próxima fase já está sendo conduzida com um número maior de pacientes. Os resultados dessa etapa serão importantes para determinar os próximos passos da pesquisa e a possibilidade de avançar para estudos clínicos mais amplos.

Especialistas também apontam o alto custo como um possível desafio caso terapias desse tipo sejam futuramente aprovadas.

Terapia genética avança para doenças mais comuns

A pesquisa também representa uma mudança na área de terapia genética.

Durante anos, técnicas de edição do DNA foram desenvolvidas principalmente para tratar doenças raras e condições causadas por alterações genéticas específicas. O estudo com o ANGPTL3 mostra uma possibilidade diferente: utilizar a edição genética contra uma condição extremamente comum e associada a doenças cardiovasculares.

O colesterol elevado está entre os principais fatores de risco para problemas como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). No Brasil, as doenças cardiovasculares representam uma das principais causas de morte.

Ainda assim, os resultados não significam que as estatinas ou outros tratamentos atuais possam ser abandonados. A terapia genética permanece experimental e não substitui as orientações médicas existentes.

Ciência ainda precisa responder questões importantes

Embora a redução do colesterol tenha se mantido por um ano nos participantes avaliados, ainda não se sabe por quanto tempo o efeito poderá permanecer no organismo.

Também será necessário acompanhar um número maior de pessoas e por períodos mais longos para identificar possíveis riscos associados à alteração permanente do DNA das células.

Para especialistas, o estudo é uma demonstração importante do potencial da edição genética, mas o caminho entre um resultado experimental e um tratamento aprovado é longo.

Se os próximos estudos confirmarem a segurança e a eficácia da técnica, a estratégia poderá abrir espaço para uma nova geração de terapias capazes de controlar doenças crônicas por períodos prolongados a partir de uma única intervenção.

g1

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