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Sarampo preocupa autoridades de saúde diante da baixa vacinação no Brasil

Nenhum estado brasileiro alcançou a meta de imunização de 95% das crianças pequenas, enquanto países das Américas registram milhares de casos. Especialistas alertam para o risco de novos surtos e reforçam a importância da vacinação.

🕒 Publicado em 22/10/2026 às 10:02

O avanço do sarampo em países das Américas voltou a acender o alerta das autoridades sanitárias brasileiras. Embora o Brasil tenha recuperado, em novembro de 2024, o reconhecimento de país livre da circulação endêmica da doença, os índices de vacinação ainda estão abaixo do patamar considerado necessário para impedir que o vírus volte a se espalhar de maneira contínua.

A preocupação aumenta diante dos registros em países vizinhos, como Peru e Bolívia, que enfrentam dificuldades para controlar a disseminação da doença. Nesse cenário, o Ministério da Saúde intensifica as ações de vigilância epidemiológica e pretende ampliar a vacinação em municípios próximos à fronteira com o Peru, na região oeste do Amazonas.

A estratégia inclui o reforço da imunização com a vacina tríplice viral, responsável por proteger contra sarampo, caxumba e rubéola.

Cobertura vacinal permanece abaixo do recomendado

Apesar de o Brasil apresentar os melhores índices de vacinação contra o sarampo desde 2016, nenhum estado atingiu a meta de imunizar 95% das crianças menores de 2 anos com as duas doses recomendadas.

Atualmente, a cobertura nacional do esquema completo permanece abaixo de 80%, situação que preocupa especialistas diante da elevada capacidade de transmissão do vírus.

De acordo com o diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti, a vacinação precisa ser reforçada para reduzir o risco de reintrodução da doença e evitar que casos importados provoquem novos surtos.

A primeira dose da vacina oferece proteção estimada entre 94% e 96%. Com a aplicação das duas doses, a proteção ultrapassa 97%, tornando a imunização completa uma das principais ferramentas para prevenir a doença.

Em 2024, a cobertura da segunda dose entre crianças de até 5 anos chegou a 91%, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde. Embora o resultado represente um avanço, o percentual ainda não alcança o objetivo de 95%.

O calendário infantil prevê que as duas doses sejam administradas até os 15 meses de idade, conforme as recomendações nacionais de vacinação.

Estados apresentam diferenças nos índices de imunização

Os dados de 2026 mostram que a cobertura vacinal varia consideravelmente entre as unidades da Federação.

Entre os estados com os melhores resultados registrados até o momento estão:

  • Paraná: 86,76%;
  • Ceará: 86,69%;
  • Minas Gerais: 86,05%.

Na outra ponta, os menores percentuais foram observados em:

  • Amapá: 63,59%;
  • Pará: 67,02%;
  • Maranhão: 69,66%;
  • Rio de Janeiro: 69,74%.

Em 2025, o Paraná também apresentou o maior índice entre os estados destacados, com 89,92%. Na sequência apareceram Minas Gerais, com 87,62%; Rondônia, com 84,56%; e Distrito Federal, com 84,03%.

Os menores resultados daquele ano foram registrados no Pará, com 58,25%; em Goiás, com 58,59%; e no Amapá, com 63,02%.

Os números reforçam a necessidade de ampliar o acesso à vacinação e identificar os grupos populacionais que ainda não completaram o esquema recomendado.

Casos importados mantêm o risco de transmissão

Mesmo sem circulação endêmica do sarampo, o Brasil continua sujeito à entrada de pessoas infectadas durante viagens internacionais.

Em 2025, foram registrados 39 casos da doença no país. Em 2026, o número já ultrapassou 50, segundo o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

A maior parte das ocorrências deste ano foi identificada em São Paulo, principalmente na capital paulista.

Casos importados podem resultar em transmissões locais quando o vírus encontra pessoas sem proteção vacinal. Por isso, a ausência de circulação sustentada não significa que o país esteja livre do risco de novos surtos.

O último caso autóctone — contraído dentro do próprio território onde foi identificado — mencionado pelo especialista ocorreu em junho de 2022, no Amapá.

Desde então, episódios relacionados à entrada do vírus no país podem provocar cadeias limitadas de transmissão. Para impedir que essas ocorrências se ampliem, as autoridades precisam identificar rapidamente os casos suspeitos e garantir a proteção da população.

Segundo Kfouri, o deslocamento internacional de pessoas torna praticamente inevitável a chegada de novos casos, especialmente quando há surtos em países próximos.

A vacinação, portanto, continua sendo fundamental para evitar que infecções importadas deem início a uma transmissão prolongada em território nacional.

Por que a cobertura precisa chegar a 95%?

O sarampo está entre as doenças infecciosas de transmissão mais fácil. O vírus se dissemina pelo ar por meio de partículas liberadas por uma pessoa infectada, inclusive durante a fala, a tosse e os espirros.

Por essa razão, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as autoridades sanitárias consideram necessária uma cobertura vacinal de pelo menos 95%, com as doses recomendadas, para interromper a transmissão sustentada.

Esse percentual está relacionado à chamada imunidade coletiva, condição em que uma proporção suficientemente elevada da população está protegida, reduzindo as oportunidades de circulação do agente infeccioso.

Quando a vacinação fica abaixo do patamar recomendado, cresce o número de pessoas suscetíveis. O risco também aumenta quando a cobertura é desigual entre bairros, municípios e comunidades.

Mesmo em locais com índices gerais relativamente elevados, a existência de grupos com baixa imunização pode facilitar a ocorrência de surtos localizados.

A pediatra Flavia Bravo, diretora da SBIm, alerta que reduções na cobertura vacinal podem deixar um número expressivo de crianças e adultos vulneráveis ao vírus.

O desafio, portanto, não consiste apenas em elevar a média nacional, mas também em garantir que a vacinação alcance diferentes regiões e grupos populacionais.

Surtos internacionais reforçam o alerta

A situação epidemiológica de outros países demonstra os riscos associados à queda da imunização.

Os Estados Unidos ultrapassaram 3,6 mil casos de sarampo em 2026, além de registrarem cinco mortes, segundo os dados apresentados na reportagem original.

No início de outubro, Nova York declarou estado de emergência diante do avanço da doença. Até 3 de outubro, o estado havia contabilizado 108 infecções naquele ano, com concentração dos registros em comunidades rurais que apresentavam baixa cobertura vacinal.

A medida permitiu ampliar o número de profissionais autorizados a administrar vacinas e solicitar exames relacionados à suspeita de sarampo.

A situação também preocupa outras regiões das Américas. Canadá, México, Guatemala, Argentina, Bolívia, Peru e Paraguai estão entre os países mencionados por especialistas em razão dos registros da doença.

O cenário internacional reforça a importância de manter elevados os índices de vacinação, mesmo em locais que conseguiram controlar a transmissão durante anos.

Desinformação contribui para a queda da vacinação

A disseminação de informações falsas sobre vacinas é apontada por especialistas como um dos fatores que dificultam a ampliação da cobertura imunológica.

Nos Estados Unidos, declarações de autoridades públicas associando imunizantes ao autismo contribuíram para reacender discussões já esclarecidas pela comunidade científica.

Até o momento, as evidências científicas disponíveis não demonstram relação causal entre a vacinação e o desenvolvimento do autismo. A hipótese ganhou notoriedade a partir de um estudo publicado em 1998, posteriormente considerado fraudulento e retirado da publicação científica.

Pesquisas realizadas ao longo dos anos, envolvendo grandes grupos de crianças, não identificaram associação entre a vacina tríplice viral e o transtorno do espectro autista.

A OMS também tem reiterado a importância de decisões sobre imunização baseadas em evidências científicas.

Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada em setembro, conforme os dados apresentados na reportagem original, apontou redução na confiança dos norte-americanos em relação à segurança da vacina contra sarampo, caxumba e rubéola. O percentual de entrevistados que consideravam o imunizante seguro para crianças passou de 84%, em 2020, para 76%, em 2026.

Além da desinformação, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, horários incompatíveis com a rotina das famílias e a percepção reduzida da gravidade da doença também podem comprometer a vacinação.

Como o sarampo permaneceu controlado em diversos lugares durante anos, parte da população não conhece diretamente suas complicações. Esse distanciamento pode diminuir a percepção dos riscos e prejudicar a adesão às campanhas de imunização.

Doença pode provocar complicações graves

O sarampo não se limita ao aparecimento de febre e manchas vermelhas na pele. A infecção pode comprometer diferentes órgãos e provocar complicações potencialmente fatais.

Crianças pequenas, especialmente menores de um ano, e pessoas com o sistema imunológico comprometido estão entre os grupos mais vulneráveis.

Entre as principais complicações estão:

  • Pneumonia: pode ocorrer durante a evolução da doença e está entre as principais causas de morte associadas ao sarampo em crianças pequenas.
  • Otite média aguda: infecção no ouvido que pode provocar complicações e, em alguns casos, perda auditiva.
  • Encefalite: inflamação do cérebro que pode causar sequelas neurológicas e levar à morte.
  • Infecções graves: a doença pode exigir hospitalização, especialmente entre pessoas mais vulneráveis.
  • Óbito: casos graves podem resultar em morte, sobretudo quando há complicações.

Outro efeito importante é a chamada amnésia imunológica, fenômeno no qual a infecção compromete parte da memória do sistema imunológico.

De acordo com o infectologista Renato Kfouri, esse efeito pode deixar o organismo mais vulnerável a outras infecções por um período que pode se estender por meses após a recuperação.

Por isso, a prevenção do sarampo também contribui para reduzir complicações que podem surgir depois da fase inicial da doença.

Principais sintomas exigem atenção

Os primeiros sinais do sarampo podem ser confundidos com os de outras infecções virais, o que exige atenção à evolução do quadro.

Entre os sintomas mais comuns estão:

  • Febre alta, geralmente superior a 38,5 °C;
  • Tosse seca;
  • Conjuntivite;
  • Mal-estar intenso;
  • Manchas vermelhas na pele.

As manchas costumam surgir entre três e cinco dias após o início dos sintomas. Geralmente aparecem primeiro no rosto e atrás das orelhas, espalhando-se posteriormente para outras partes do corpo.

A persistência da febre após o aparecimento das manchas pode indicar complicações e merece atenção, especialmente em crianças pequenas.

Diante de sintomas suspeitos, a orientação é procurar um serviço de saúde para avaliação profissional. Como o sarampo é altamente contagioso, é importante informar previamente a equipe sobre a suspeita para receber orientações de atendimento que reduzam o risco de exposição de outras pessoas.

Quem deve receber a vacina contra o sarampo?

A vacinação com a tríplice viral é a principal medida de prevenção. O imunizante protege contra sarampo, caxumba e rubéola.

Conforme o Calendário Nacional de Vacinação, o esquema infantil prevê:

  • Aos 12 meses: primeira dose da vacina tríplice viral.
  • Aos 15 meses: segunda dose, por meio da vacina indicada no calendário infantil.

Para crianças, adolescentes e adultos que não tenham comprovante de vacinação ou estejam com o esquema incompleto, as recomendações variam conforme a idade, o histórico vacinal e as orientações das autoridades de saúde.

De maneira geral, pessoas de 5 a 29 anos sem vacinação completa devem receber as doses necessárias para completar o esquema recomendado. Para adultos de 30 a 59 anos, a recomendação de rotina prevê pelo menos uma dose, conforme o histórico vacinal.

Em situações de surto ou risco epidemiológico, o Ministério da Saúde pode estabelecer estratégias específicas e ampliar temporariamente os grupos contemplados pelas campanhas.

Por isso, é importante verificar a situação vacinal em uma unidade de saúde e seguir as recomendações vigentes para cada faixa etária.

Pessoas que já possuem o esquema completo documentado devem seguir as orientações oficiais, sem necessidade de doses adicionais de rotina quando não houver indicação específica.

Vacinação é essencial para evitar novos surtos

A experiência brasileira e os surtos registrados em outros países demonstram que a manutenção do controle do sarampo depende de uma cobertura vacinal elevada e distribuída de forma homogênea.

Embora o país tenha recuperado o reconhecimento de eliminação da circulação endêmica, a entrada de casos importados continua representando um risco, principalmente em comunidades onde muitas pessoas não estão imunizadas.

Ampliar a vacinação infantil, atualizar a situação vacinal de adolescentes e adultos e combater a desinformação são medidas essenciais para reduzir a vulnerabilidade da população.

A orientação das autoridades de saúde é que pais e responsáveis verifiquem a caderneta de vacinação das crianças e procurem uma unidade de saúde quando houver doses pendentes.

Manter a imunização em dia é uma das principais formas de proteger a população e impedir que o sarampo volte a estabelecer uma cadeia contínua de transmissão no Brasil.

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