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NOTÍCIAEleições em Israel colocam futuro das negociações com o Líbano em debate

Eleições em Israel colocam futuro das negociações com o Líbano em debate

Disputa pelo Parlamento israelense ocorre em meio às tensões com o Hezbollah. Especialistas avaliam que uma eventual mudança de governo pode alterar as estratégias diplomáticas, mas não necessariamente a política de segurança em relação ao grupo libanês.

🕒 Publicado em 22/10/2026 às 10:14

A continuidade dos conflitos no Oriente Médio tornou-se um dos principais temas da disputa política em Israel. A eleição para o Parlamento, conhecido como Knesset, está prevista para 27 de outubro e terá como um dos pontos centrais a avaliação da atuação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diante das guerras envolvendo o país.

O governo e seus adversários apresentam interpretações diferentes sobre os resultados das operações militares. Enquanto integrantes da administração de Netanyahu defendem que as ações foram necessárias para proteger a população israelense, representantes da oposição questionam se os objetivos anunciados foram efetivamente alcançados e apontam os prejuízos provocados pelos conflitos.

Entre as questões que permanecem em aberto está a situação no Líbano, onde Israel combateu o Hezbollah, grupo político e militar libanês. A ofensiva incluiu bombardeios que provocaram milhares de mortes e avanços das tropas israelenses em território do país vizinho.

Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos reduziu a intensidade dos confrontos, mas não resultou em um acordo definitivo para encerrar as hostilidades.

Israel defende o desarmamento do Hezbollah, enquanto o grupo exige a retirada completa das forças israelenses do território libanês. A divergência mantém o futuro da fronteira entre os dois países como um dos principais desafios diplomáticos da região.

Eleições podem influenciar as negociações com o Líbano?

Para o cientista político Samuel Feldberg, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, uma eventual mudança no comando do governo israelense não deve representar, necessariamente, uma transformação profunda na política externa e nas estratégias de segurança do país.

Segundo o pesquisador, nomes importantes da oposição também possuem experiência militar e atuação relacionada à segurança nacional. Entre eles está Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, citado como um dos possíveis nomes para assumir o cargo de primeiro-ministro caso Netanyahu deixe o poder.

Outro político com experiência na área é Avigdor Lieberman, que já ocupou o Ministério da Defesa.

Na avaliação de Feldberg, as negociações com o governo libanês e a pressão para que o Hezbollah reduza sua capacidade militar devem continuar independentemente de quem estiver à frente do Executivo israelense.

A professora de Relações Internacionais Karina Calandrin, do Ibmec-SP, também considera que a exigência de impedir o fortalecimento militar do Hezbollah no sul do Líbano deve permanecer relevante no debate político israelense.

Para a especialista, uma mudança de governo pode influenciar os instrumentos diplomáticos utilizados e a disposição para negociar, mas não necessariamente eliminará a preocupação de Israel com a presença militar do grupo na região.

Pesquisa aponta dúvidas sobre os resultados da guerra

A avaliação dos resultados militares também aparece entre as questões que dividem a opinião pública israelense.

Uma pesquisa realizada em junho pela Universidade Hebraica de Jerusalém, em parceria com o Instituto Agam, investigou a percepção dos entrevistados sobre a chamada ideia de “vitória total”, que incluía a eliminação da ameaça representada pelo Hezbollah no Líbano, entre outros objetivos.

De acordo com os resultados apresentados, apenas 12,2% dos participantes consideraram que Israel havia alcançado a maioria das metas estabelecidas.

Outros 61,3% afirmaram que esses objetivos não tinham sido alcançados de forma alguma, enquanto 26,5% avaliaram que parte das metas havia sido cumprida.

Os números ajudam a contextualizar o debate interno sobre os resultados das operações militares. Entretanto, a pesquisa retrata a percepção dos entrevistados no período em que foi realizada e não representa, isoladamente, uma avaliação definitiva dos resultados estratégicos do conflito.

Possível acordo de paz enfrenta obstáculos

A possibilidade de uma negociação entre Israel e o governo libanês para estabelecer condições de segurança duradouras também é discutida por especialistas.

João Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel Aviv, avalia que um novo governo israelense poderia tentar avançar em um entendimento com as autoridades libanesas, incluindo medidas relacionadas ao desarmamento do Hezbollah.

Em determinadas circunstâncias, esse processo poderia abrir caminho para um acordo de paz entre os dois países, que mantêm uma relação marcada por conflitos e tensões na fronteira.

O caminho, porém, envolve dificuldades políticas e militares. O Hezbollah rejeita a exigência de abandonar suas armas e mantém a retirada das tropas israelenses como uma de suas principais demandas.

Além disso, o avanço de qualquer negociação depende da capacidade das partes envolvidas de chegar a um entendimento sobre segurança, presença militar e controle territorial.

Miragaya ressalta que o próprio Hezbollah pode representar um obstáculo às tratativas, o que torna o processo de negociação particularmente complexo.

Segurança regional permanece no centro do debate

O resultado das eleições israelenses será acompanhado de perto por governos e organismos internacionais interessados na estabilidade do Oriente Médio.

Embora a composição do governo possa influenciar a condução das negociações, os especialistas ouvidos na análise destacam que a preocupação com a capacidade militar do Hezbollah tende a continuar presente na agenda de segurança israelense.

O principal desafio será conciliar as exigências de segurança de Israel com as demandas libanesas pela retirada das forças israelenses e com as dificuldades de alcançar um acordo que seja aceito pelos diferentes atores envolvidos.

Nesse cenário, o futuro das negociações dependerá não apenas do resultado eleitoral, mas também das decisões políticas e militares tomadas após a votação e da disposição das partes para buscar uma solução diplomática.

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