Uma investigação da Polícia Federal que começou após uma empresa estrangeira receber uma carga de pó de brita no lugar de cassiterita revelou um esquema que, segundo os investigadores, teria movimentado milhões de dólares a partir da comercialização de minério extraído ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, em Roraima.
O caso é alvo da segunda fase da Operação Disco de Ouro, deflagrada nesta quarta-feira (23). Entre os investigados estão o cantor Alexandre Pires, uma empresa ligada ao artista e os empresários Diego Possebon e Matheus Possebon.
De acordo com a investigação, empresas relacionadas ao grupo teriam repassado aproximadamente R$ 31 milhões ao cantor e à produtora musical ligada a ele. A PF suspeita que os valores tenham sido utilizados para fracionar, ocultar ou dissimular recursos supostamente provenientes das atividades investigadas.
Alexandre Pires nega qualquer envolvimento com garimpo ou extração ilegal de minério. A defesa afirma que o cantor nunca participou de atividades desse tipo e que sua inocência está sendo demonstrada durante as investigações.
Diego Possebon é apontado pelos investigadores como um dos principais articuladores do esquema. Matheus Possebon, por sua vez, era empresário de Alexandre Pires no período investigado.
Como a investigação começou
O caso chegou à Polícia Federal depois que uma empresa suíça especializada no comércio de metais apresentou uma notícia-crime relatando uma suposta fraude envolvendo a compra de cassiterita.
Segundo a investigação, o grupo teria comercializado pó de brita como se fosse cassiterita, provocando um prejuízo estimado em US$ 48 milhões, valor equivalente a cerca de R$ 247 milhões pela cotação mencionada na investigação.
A brita é uma rocha utilizada principalmente na construção civil e possui valor muito inferior ao da cassiterita. Já a cassiterita é a principal fonte utilizada para obtenção de estanho, matéria-prima empregada em diferentes segmentos industriais.
A empresa suíça havia contratado, em 2021, uma companhia norte-americana para intermediar a aquisição de cassiterita no Brasil.
Segundo a PF, essa intermediadora teria passado a comprar o minério de uma empresa chamada Betser, que possuía autorização para exploração mineral em Itaituba, no Pará.
Os investigadores suspeitam que essa autorização tenha sido utilizada para dar aparência legal ao minério que, na realidade, teria origem em áreas de exploração ilegal na Terra Indígena Yanomami.
Minério apreendido e substituição da carga
A investigação também identificou uma apreensão realizada pela Polícia Federal em fevereiro de 2022. Na ocasião, mais de 100 toneladas de cassiterita foram encontradas em instalações relacionadas à Betser, em Roraima.
Conforme a linha investigativa apresentada pela PF, a apreensão teria deixado o grupo sem quantidade suficiente de minério para cumprir o contrato firmado com a empresa estrangeira.
A suspeita é de que, diante dessa situação, os envolvidos tenham decidido enviar pó de brita no lugar da cassiterita para obter o pagamento antecipado.
Em abril de 2023, um representante da empresa suíça esteve no Brasil para acompanhar pessoalmente a operação. Ele visitou os armazéns onde o material era armazenado, em Manaus, e acompanhou a preparação dos contêineres destinados à exportação.
Diego Possebon e Christian Costa dos Santos, apontado pela investigação como um dos líderes do grupo, estavam no local.
Ainda segundo a PF, documentos apresentados durante o processo indicavam que o material possuía elevada concentração de estanho. A investigação, porém, aponta que os laudos de inspeção e testes químicos utilizados para comprovar a composição da carga teriam sido falsificados.
Investigação aponta caminho do dinheiro
Após receber os documentos relacionados à suposta carga de cassiterita, a empresa suíça teria antecipado US$ 48 milhões à intermediadora.
Desse montante, aproximadamente US$ 20,4 milhões, equivalentes a cerca de R$ 105 milhões, foram destinados à Metalsur, empresa sediada em Canoas, no Rio Grande do Sul.
Segundo a investigação, a transferência teria sido realizada por meio de um contrato de empréstimo considerado falso pelos investigadores.
Outros US$ 22,2 milhões, aproximadamente R$ 114 milhões, foram enviados para a empresa norte-americana Empire Strong International.
A PF afirma que parte desse dinheiro teria sido distribuída posteriormente para contas de pessoas físicas e jurídicas relacionadas a Diego Possebon por meio de operações conhecidas como dólar-cabo.
Entre as contas identificadas pelos investigadores estavam aquelas vinculadas à empresa de Alexandre Pires.
Grupo de mensagens chamou atenção da PF
Durante a investigação, os agentes identificaram um grupo no WhatsApp denominado “GRUPO CONTA USD”.
Segundo a PF, Diego Possebon utilizava o grupo para encaminhar comprovantes de depósitos realizados em dólares nos Estados Unidos e indicar valores equivalentes que deveriam ser depositados em reais no Brasil.
As transferências teriam como destino diversas contas bancárias de pessoas apontadas na investigação como intermediários ou possíveis laranjas.
As duas empresárias responsáveis pela Empire Strong International também procuraram a Polícia Federal depois da primeira fase da operação, em 2023.
Conforme a investigação, elas perceberam que haviam movimentado recursos destinados a pessoas relacionadas ao esquema de extração ilegal de minério e passaram a colaborar com os investigadores.
Em maio de 2023, aproximadamente um mês depois da visita do representante da empresa suíça ao Brasil, a companhia constatou que os contêineres recebidos não continham a cassiterita adquirida. O material encontrado seria areia.
A descoberta levou à formalização da denúncia que posteriormente contribuiu para o avanço da segunda fase da Operação Disco de Ouro.
Segunda fase da Operação Disco de Ouro
A nova etapa da investigação é um desdobramento da Operação Disco de Ouro, iniciada em 2023 para apurar suspeitas relacionadas à comercialização e exportação de minério e ao uso de documentos que poderiam conferir aparência de legalidade às transações.
Nesta quarta-feira (23), foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão, além de 17 ordens judiciais para sequestro de bens e valores.
As medidas foram autorizadas pela 4ª Vara da Justiça Federal em Boa Vista, Roraima.
Não foram expedidos mandados de prisão nesta fase.
Conforme a participação atribuída a cada investigado, os envolvidos poderão responder por crimes como lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsidade ideológica e operação irregular de instituição financeira, além de outros delitos que eventualmente sejam identificados no decorrer das apurações.
O que diz a defesa de Alexandre Pires
Em manifestação divulgada após a operação, o advogado Luiz Flávio Borges D’Urso afirmou que Alexandre Pires não possui qualquer relação com garimpo ou extração mineral, especialmente em terras indígenas.
A defesa também destacou a carreira do cantor e afirmou que ele foi surpreendido pela inclusão de seu nome nos novos desdobramentos da investigação.
Segundo o advogado, Alexandre Pires “jamais cometeu qualquer ilícito” e confia na Justiça brasileira.
A reportagem não apresenta, no material fornecido, manifestação dos demais investigados. A defesa dos outros citados foi procurada, mas não havia resposta registrada até a publicação do conteúdo de origem.




