Há livros que simplesmente contam histórias. Outros conseguem fazer o leitor sentir que está caminhando pelas ruas, ouvindo as vozes e reconhecendo os costumes de uma cidade que talvez nem tenha conhecido.
É essa sensação que acompanha a leitura de “Cuiabá, um revival”, obra de João Batista de Almeida, publicada pela Editora Entrelinhas. Mais do que reunir lembranças de uma Cuiabá de outros tempos, o livro constrói um verdadeiro passeio pela memória da capital mato-grossense.
A obra percorre diferentes períodos e aspectos da cidade, passando por sua formação histórica, personagens, patrimônio arquitetônico, festas populares, culinária, música, comunicação, futebol, artes e literatura. O resultado é um retrato múltiplo de Cuiabá, construído não apenas a partir dos grandes acontecimentos, mas também das pequenas lembranças que ajudam a definir a identidade de um povo.
Um autor profundamente ligado a Cuiabá
João Batista de Almeida reúne uma trajetória profissional e intelectual que ajuda a explicar a dimensão do trabalho.
Cuiabano, foi Procurador de Justiça aposentado, Procurador do Estado de Mato Grosso, vereador por Cuiabá, professor e diretor da Escola Superior do Ministério Público. Também organizou publicações jurídicas, escreveu o Manual do Tribunal do Júri e integra a Academia Mato-grossense de Letras.
Essa experiência aparece nas páginas do livro. Há rigor histórico, mas também existe o olhar de quem conhece profundamente a cidade e suas transformações.
O escritor Aclyse de Mattos, responsável pelo prefácio, utiliza a ideia de um “revoo” para definir a obra. A expressão traduz bem o percurso realizado pelo autor: ele sobrevoa diferentes períodos da história cuiabana, pousa em personagens, lugares e acontecimentos e recupera elementos que considera importantes para as próximas gerações.
Da origem de Cuiabá às transformações da cidade
O livro retorna aos primeiros capítulos da história da capital, passando pelas bandeiras, pela presença indígena, pela mineração e pela descoberta do ouro.
Personagens como Pascoal Moreira Cabral e Miguel Sutil reaparecem nesse percurso, assim como os primeiros núcleos de povoamento e a transformação de Cuiabá em Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, em 1727.
Mas a narrativa não fica restrita aos acontecimentos tradicionais dos livros de história.
O autor percorre o córrego da Prainha, igrejas, praças, casarões e outros espaços que ajudaram a construir a paisagem urbana da capital.
As fotografias têm papel fundamental nesse trabalho. Mais do que ilustrar as páginas, elas funcionam como registros de uma cidade que mudou profundamente ao longo das décadas.
Patrimônio que desapareceu
Ao recuperar imagens e histórias de construções que foram modificadas ou desapareceram, a obra também provoca uma reflexão sobre a preservação do patrimônio histórico.
Um dos exemplos é a antiga Catedral de Cuiabá, demolida em 1968.
A lembrança de construções que não existem mais levanta uma questão que continua atual: até que ponto o desejo de modernizar uma cidade pode significar a perda de referências fundamentais para sua identidade?
O livro mostra que patrimônio não é apenas uma construção antiga. É também a memória associada a ela, as pessoas que a frequentaram e as histórias que aconteceram naquele espaço.
O sotaque também conta a história
Outro aspecto interessante da obra está na abordagem da identidade linguística cuiabana.
O falar local aparece como resultado de diferentes influências históricas e culturais. A presença indígena, o isolamento geográfico, a influência do falar caipira trazido pelos bandeirantes e o contato com o castelhano ajudaram a formar uma maneira própria de falar.
Expressões populares e características do sotaque mostram que a língua também é patrimônio.
Nesse contexto, termos e expressões que podem parecer curiosos para quem vem de fora passam a ser compreendidos como parte da história de uma comunidade.
Personagens que permanecem na memória popular
A obra também recupera figuras que ajudaram a construir o imaginário cuiabano.
Maria Taquara, Jejé de Oyá e Mãe Bonifácia aparecem ao lado de histórias e lendas, como a do Minhocão do Pari.
São personagens que ajudam a mostrar uma dimensão da história que nem sempre aparece nos registros oficiais.
Mãe Bonifácia, por exemplo, é apresentada para além do nome que hoje identifica um dos parques mais conhecidos da capital. Sua história está relacionada às ervas, às práticas de cura e à memória de descendentes de pessoas escravizadas.
Jejé de Oyá surge ligada à irreverência, ao carnaval e à vida social cuiabana.
São histórias que devolvem humanidade a nomes que poderiam permanecer apenas registrados em ruas, praças ou equipamentos públicos.
Rasqueado, festas e tradições
A música ocupa outro espaço importante na narrativa.
O rasqueado, seus compositores e intérpretes aparecem como elementos fundamentais da identidade cultural de Mato Grosso. A música se mistura às histórias populares e às formas de falar, celebrar e conviver.
O mesmo ocorre com as festas tradicionais.
A Festa do Divino, a Festa de São Benedito, o cururu, o siriri, a viola de cocho, a cerâmica e os saberes ribeirinhos são apresentados como partes de um patrimônio que permanece vivo justamente porque continua sendo praticado.
Não se trata apenas de tradição registrada em documentos. É cultura presente no cotidiano.
O rádio, a televisão e a imprensa
A comunicação também ganha espaço no livro.
João Batista recupera os primeiros tempos da radiofonia cuiabana e lembra emissoras, programas e profissionais que fizeram do rádio uma companhia diária para muitas famílias.
Depois, a narrativa acompanha a chegada da televisão e a importância da imprensa escrita.
É um registro de como a própria cidade passou a construir mecanismos para contar suas histórias e conversar consigo mesma.
Teatro, cinema e artes visuais
A produção artística de Cuiabá também é apresentada como parte essencial dessa memória.
O teatro, as artes visuais, a fotografia e o cinema aparecem por meio de nomes e espaços que marcaram diferentes gerações.
Zulmira Canavarros é lembrada como uma referência do teatro cuiabano. Nas artes visuais, nomes como Gervane de Paula, Dalva de Barros e Aline Figueiredo ajudam a revelar a força da produção artística mato-grossense.
O cinema também aparece nessa trajetória, com referências ao Cine Teatro Cuiabá, Cine São Luiz e Cine Bandeirantes, além de realizadores contemporâneos.
O capítulo dedicado ao Cine Tropical chama atenção pela riqueza das lembranças sobre sua arquitetura e atmosfera. A descrição permite imaginar não apenas o prédio, mas a experiência de frequentar aquele espaço.
Futebol também é memória
Como não poderia deixar de ser, o futebol integra o retrato da Cuiabá de outras décadas.
Clubes, rivalidades, torcedores, arquibancadas e o antigo Dutrinha aparecem como elementos de uma paixão coletiva que ultrapassa o esporte.
A história do futebol também revela formas de convivência e de pertencimento. As partidas eram momentos de encontro e as rivalidades faziam parte da própria identidade dos bairros e das comunidades.
As festas que ocupavam as ruas
As comemorações públicas também ajudam a entender como os cuiabanos viviam a cidade.
Entre os registros estão as celebrações dos 250 anos de Cuiabá, em 1969, com procissões, carros alegóricos e o conhecido bolo em formato de obelisco.
As fotografias desses acontecimentos registram muito mais do que uma festa. Elas mostram roupas, costumes, comportamentos e maneiras de ocupar os espaços públicos.
A culinária como patrimônio
A memória cuiabana também passa pela cozinha.
Pratos e preparações como Maria-isabel, paçoca de pilão, arroz com pequi, peixes, farofa de banana, bolo de arroz, bolo de queijo e pixé aparecem como parte de uma identidade construída também ao redor da mesa.
A culinária preserva costumes, ingredientes, técnicas e histórias familiares. É uma das formas mais espontâneas de manter uma tradição viva.
Política e personagens históricos
A vida pública também integra o percurso realizado pelo autor.
Entre os personagens lembrados está Dante de Oliveira, cuja trajetória ficou marcada nacionalmente pela luta pelas eleições diretas no Brasil.
Outro nome de grande relevância é Cândido Mariano da Silva Rondon, cuja atuação ultrapassou as fronteiras de Mato Grosso e esteve ligada à integração territorial brasileira, à implantação de sistemas de comunicação e ao contato com povos indígenas.
A presença desses personagens amplia a perspectiva da obra: ao contar Cuiabá, João Batista também acaba contando capítulos importantes da história de Mato Grosso e do Brasil.
Literatura que nasce da terra
A literatura mato-grossense ocupa um espaço especial na obra.
Autores como Tereza Albues, Ricardo Guilherme Dicke, Silva Freire e Manoel de Barros aparecem como escritores que transformaram Mato Grosso em matéria literária.
Cada um, à sua maneira, demonstrou que uma literatura profundamente ligada a uma região pode alcançar questões universais.
A obra também destaca Glória Albues, apontada como a primeira documentarista de Mato Grosso. Roteirista e diretora de cinema e televisão, ela teve atuação ligada à cultura, à televisão e à produção audiovisual do Estado.
Uma leitura para quem nasceu e para quem chegou depois
Talvez uma das maiores qualidades de “Cuiabá, um revival” seja justamente sua capacidade de conversar com públicos diferentes.
Para quem nasceu em Cuiabá, determinadas páginas podem funcionar como reencontro com lugares, pessoas, expressões e costumes conhecidos desde a infância.
Para quem chegou depois, o livro cumpre outra função: apresenta uma cidade que existia antes de sua chegada e ajuda a compreender as raízes da sociedade cuiabana.
Essa diferença de experiência não diminui a obra. Pelo contrário. Mostra que memória também é uma forma de acolhimento.
Uma cidade não pode perder sua memória
Ao terminar a leitura, fica uma reflexão importante.
Cidades mudam. Prédios são demolidos, ruas são alteradas, cinemas fecham, costumes desaparecem e novas gerações passam a ocupar espaços que antes tinham outros significados.
Quando ninguém registra essas transformações, não desaparecem apenas objetos ou construções. Desaparecem referências.
É nesse ponto que o livro de João Batista de Almeida ganha uma dimensão ainda maior.
“Cuiabá, um revival” não transforma o passado em algo intocável. Ele mostra que lembrar também é uma forma de compreender o presente.
A obra funciona como história, memória, crônica, registro cultural e homenagem. Reúne personagens conhecidos e outros que poderiam desaparecer da lembrança coletiva; registra monumentos e costumes; recupera músicas, festas, sabores, sotaques e histórias.
Mais do que olhar para uma Cuiabá que passou, João Batista nos convida a perceber o que ainda permanece.
Porque uma cidade não é feita apenas de avenidas, prédios e praças. É feita também das pessoas que viveram nela, das palavras que pronunciaram, das músicas que cantaram, das histórias que contaram e das lembranças que decidiram preservar.
E é justamente essa memória que “Cuiabá, um revival” ajuda a manter viva.




