A Rússia encerrou neste domingo (20) uma eleição parlamentar marcada pela guerra na Ucrânia, pela forte restrição à participação de candidatos contrários ao conflito e por novos episódios de tensão envolvendo ataques de drones.
Realizada entre sexta-feira (18) e domingo, a votação para a Duma Estatal, a Câmara Baixa do Parlamento russo, é a primeira desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. O presidente Vladimir Putin apresentou o processo eleitoral como uma demonstração da unidade nacional e do apoio aos militares russos.
O partido governista Rússia Unida, que apoia Putin, era apontado como favorito a preservar sua predominância no Parlamento. A legenda já havia conquistado mais de dois terços das cadeiras da Duma na eleição de 2021.
Participação da oposição foi limitada
A disputa ocorreu em um ambiente político fortemente controlado pelas autoridades russas. A maior parte dos candidatos que defendiam posições contrárias à guerra não conseguiu participar da eleição.
O partido liberal Yabloko, que mantém uma posição crítica em relação ao conflito, teve sua participação nacional impedida após uma decisão da Suprema Corte russa. Alguns integrantes da legenda, entretanto, continuaram concorrendo em disputas individuais.
Integrantes do partido também enfrentaram processos judiciais e prisões relacionados a declarações sobre a guerra. Na Rússia, leis que criminalizam a divulgação do que as autoridades classificam como informações falsas sobre as Forças Armadas podem resultar em longas penas de prisão.
O Kremlin afirma que as restrições são necessárias para preservar a unidade nacional durante o conflito. Críticos do governo, por outro lado, apontam as limitações à oposição como um fator que reduz a competitividade da disputa eleitoral.
Rússia acusa Ucrânia de tentar interferir na votação
A realização da eleição também foi acompanhada por incidentes de segurança.
No último dia de votação, a Ucrânia lançou um grande ataque com drones contra território russo, incluindo a região de Moscou. Autoridades russas afirmaram ter interceptado mais de mil drones em diferentes áreas e disseram que centenas tinham como alvo a capital. O ataque provocou mortes e danos a instalações, incluindo uma refinaria de petróleo.
O prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, afirmou que a ofensiva tinha como objetivo interferir nas eleições, embora tenha declarado que a tentativa não teria impedido a realização do pleito. A Ucrânia não apresentou, até o momento, uma confirmação oficial dessas alegações específicas.
Durante os dias anteriores, autoridades russas também relataram ataques contra sistemas de votação eletrônica e redes de comunicação. No sábado (19), Moscou afirmou ter repelido um ataque cibernético contra o sistema de votação online.
Putin associa votação ao apoio aos militares
Antes do início da votação, Putin afirmou em pronunciamento televisionado que a participação dos eleitores demonstraria o apoio da população aos soldados russos e às políticas do governo.
A mensagem oficial do Kremlin apresenta a eleição como uma oportunidade para reafirmar a unidade do país diante do que Moscou descreve como uma ameaça externa.
A análise do processo eleitoral, porém, é diferente entre o governo russo e organizações e especialistas críticos ao Kremlin. Enquanto as autoridades destacam estabilidade e participação popular, críticos apontam a ausência de uma competição eleitoral plenamente aberta.
Guerra influencia o ambiente político
A eleição ocorre em um momento de forte pressão econômica e social provocada pela continuidade da guerra.
Além dos gastos militares, a Rússia enfrenta desafios relacionados ao mercado de trabalho, inflação em determinados setores, escassez de mão de obra e problemas no abastecimento de combustíveis. Esses fatores aumentaram a pressão sobre o governo durante o período eleitoral.
Mesmo nesse cenário, partidos que permanecem autorizados a disputar a eleição, como o Partido Comunista e o Novo Partido Popular, são considerados parte da chamada oposição sistêmica e, em questões importantes, costumam votar em consonância com o governo.
O cenário permite que eventuais votos de protesto sejam direcionados a essas legendas, sem necessariamente representar uma mudança significativa na composição política da Duma.
Votação em áreas ocupadas pela Rússia gera críticas
Outro ponto controverso foi a realização da eleição em regiões da Ucrânia ocupadas pela Rússia.
Pela primeira vez, moradores dessas áreas foram incluídos no processo eleitoral para a Duma. Moscou considera esses territórios parte da Federação Russa, enquanto a Ucrânia e outros países não reconhecem essa anexação.
A realização da votação nesses locais foi denunciada por Kiev como ilegal. A questão também ampliou as críticas internacionais sobre a condução do processo eleitoral.
Quando saem os resultados?
Com o encerramento das urnas neste domingo, os primeiros resultados começaram a ser esperados para a noite, no horário local. A apuração completa deve avançar ao longo da segunda-feira.
Até o fechamento desta matéria, o cenário político indicado pelas pesquisas e análises apontava para a manutenção da predominância do Rússia Unida na Duma. Isso, porém, não deve ser confundido com um resultado oficial até que a apuração seja concluída.
A eleição deverá ser utilizada pelo Kremlin como demonstração de apoio interno às suas políticas e à condução da guerra, enquanto governos estrangeiros e grupos críticos ao governo russo devem continuar questionando as condições de competição e participação oferecidas durante o processo eleitoral.




