A crescente tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela ganhou um novo capítulo nesta semana, com a movimentação de embarcações militares americanas em direção à costa venezuelana e a resposta imediata de Nicolás Maduro, que anunciou a mobilização de mais de 4 milhões de milicianos para reforçar a defesa do país. A justificativa oficial do governo norte-americano é combater o narcotráfico na região, mas o discurso político por trás da ação revela um contexto mais amplo de pressão sobre o regime chavista.
Por ordem do presidente Donald Trump, três navios de guerra foram enviados ao sul do Caribe, próximos ao litoral da Venezuela. A decisão veio acompanhada de declarações duras da Casa Branca, que classifica Maduro como ilegítimo, foragido e líder de uma organização narcoterrorista. O Departamento de Justiça dos EUA colocou o presidente venezuelano entre os mais procurados do mundo e oferece US$ 50 milhões por informações que levem à sua prisão ou condenação. As acusações incluem envolvimento com o tráfico internacional de drogas, uso de armamento em atividades ilegais e ligação direta com o chamado Cartel de los Soles, considerado uma organização terrorista pelos EUA.
Em resposta, Maduro afirmou que não aceitará “interferências imperiais” e ativou o que chamou de plano especial de defesa. O presidente venezuelano anunciou a mobilização de 4,5 milhões de milicianos, reforçando a estrutura da Milícia Bolivariana, composta majoritariamente por civis armados e treinados, vinculados às Forças Armadas do país. Segundo ele, essas forças estarão distribuídas por todo o território nacional, prontas para agir em caso de agressão.
Apesar da retórica inflamada de ambos os lados, especialistas avaliam que um ataque direto dos Estados Unidos ao território venezuelano é pouco provável. Para o professor e pesquisador Vitelio Brustolin, da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Harvard, o envio dos navios americanos representa mais uma estratégia de dissuasão e pressão política do que uma intenção real de intervenção militar. Segundo ele, o gesto serve para ampliar a capacidade de interdição marítima e reforçar o poder simbólico dos EUA na região.
O relatório de 2025 do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), referência global em análises de defesa, reforça o cenário de fragilidade do aparato militar venezuelano. Segundo o estudo, as forças armadas do país operam com capacidade reduzida e dificuldades de manutenção, resultado de anos de sanções internacionais, isolamento diplomático e crise econômica. Com menos de 0,1% do orçamento militar dos EUA, a Venezuela depende da manutenção de equipamentos antigos e do apoio técnico de parceiros como China, Rússia e Irã.
Ainda assim, o país sul-americano conta com alguns recursos estratégicos, como os drones Mohajer fabricados no Irã, além de mísseis de curto alcance de origem russa e americana. Também foram iniciados, nos últimos anos, projetos de produção nacional, como o drone Ansu-100, desenvolvido com tecnologia iraniana. Na Marinha, porém, as fragatas e submarinos estão defasados em relação aos padrões modernos, e os três destróieres enviados pelos EUA possuem poder de fogo muito superior à capacidade naval venezuelana.
De acordo com Brustolin, Maduro tenta usar o movimento americano como forma de unificar a população contra um inimigo externo, fortalecer o discurso nacionalista e elevar os custos políticos de qualquer ação estrangeira. A convocação das milícias também serve para sinalizar resistência e reforçar o controle interno, em meio a um cenário de instabilidade prolongada.
Embora um conflito direto ainda pareça distante, o cenário atual marca uma nova fase de tensão diplomática entre Caracas e Washington, com consequências ainda imprevisíveis para a segurança e estabilidade da América do Sul.




