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Agronegócio cobra soluções para crédito, infraestrutura e mercados internacionais do próximo presidente

Endividamento rural, dependência de fertilizantes importados e dificuldades logísticas estão entre os desafios do setor; especialistas defendem políticas públicas de longo prazo

🕒 Publicado em 09/10/2026 às 08:28

O próximo presidente da República terá pela frente uma série de desafios para fortalecer o agronegócio brasileiro. Apesar da importância do setor para a economia nacional, problemas como endividamento dos produtores, crédito caro, baixa cobertura do seguro rural, eventos climáticos extremos e dificuldades de infraestrutura exigem medidas que podem ultrapassar o período de um mandato presidencial.

O diagnóstico reúne avaliações de especialistas e propostas da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que defende cinco frentes de políticas públicas para ampliar a competitividade da agroindústria nacional. Entre as prioridades estão o financiamento rural, o desenvolvimento de cadeias produtivas estratégicas, a modernização da infraestrutura, a valorização da imagem do setor e a expansão dos mercados internacionais.

Segundo os especialistas, a solução dos problemas depende da atuação conjunta do poder público e da iniciativa privada, além de planejamento contínuo e investimentos de longo prazo.

Crédito caro e baixa cobertura do seguro rural

O custo do financiamento está entre as principais dificuldades enfrentadas pelos produtores. De acordo com Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), o endividamento rural e o aumento dos pedidos de recuperação judicial contribuem para elevar os juros e tornar os bancos mais seletivos na concessão de crédito.

Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, explica que parte das dificuldades financeiras decorre de prejuízos acumulados em safras sucessivas, provocados por problemas climáticos, juros elevados e aumento dos custos de produção.

Esse cenário pode comprometer novos investimentos e dificultar a continuidade das atividades agrícolas. Para Gilio, o governo precisa adotar medidas que ajudem a conter o avanço das dificuldades financeiras no setor.

Outro problema é a baixa cobertura do seguro rural. Segundo os dados apresentados pelos pesquisadores, apenas 3% da produção agropecuária brasileira conta com esse tipo de proteção.

A Abag propõe a criação de uma política nacional de financiamento, seguro rural e resiliência climática, com planejamento plurianual e recursos para enfrentar prejuízos provocados por eventos extremos. A proposta inclui um Fundo Nacional de Catástrofes Climáticas.

O equilíbrio financeiro também depende de medidas dos próprios produtores e das instituições credoras. Na avaliação de Serigati, os bancos precisam reorganizar suas carteiras de crédito, enquanto os tomadores devem melhorar o controle das contas e demonstrar capacidade de pagamento.

Dependência de fertilizantes importados

A produção agrícola brasileira também está exposta às oscilações do mercado internacional de fertilizantes. O país importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, o que aumenta a vulnerabilidade a conflitos internacionais, dificuldades logísticas e mudanças nos preços globais.

O Brasil possui o Plano Nacional de Fertilizantes, que busca reduzir a dependência externa. Entretanto, os resultados exigem investimentos e tempo, além da disponibilidade de matérias-primas necessárias à produção de diferentes tipos de adubo.

O professor Carlos Eduardo de Freitas Vian, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), avalia que o país continuará dependendo de parte das importações, pois não dispõe de todos os recursos necessários para produzir internamente os insumos utilizados no campo.

Enquanto a produção nacional não amplia sua capacidade, uma das alternativas apontadas pelos especialistas é diversificar os países fornecedores, reduzindo a exposição a crises concentradas em determinadas regiões.

A Abag também defende o fortalecimento das cadeias industriais estratégicas e o estímulo à fabricação nacional de insumos e equipamentos. No entanto, os pesquisadores ressaltam que a produção de determinados componentes tecnológicos, como chips utilizados em máquinas agrícolas, pode enfrentar limitações econômicas e de escala.

Outro ponto levantado pela entidade é a necessidade de reduzir entraves regulatórios que atrasam a aprovação de novas tecnologias. Os especialistas ponderam, porém, que a simplificação dos procedimentos precisa preservar as avaliações de segurança ambiental e de saúde.

Infraestrutura não acompanha expansão da produção

A capacidade de armazenamento, as condições das estradas e a conectividade rural estão entre os principais gargalos logísticos do agronegócio.

O pesquisador Felippe Serigati destaca que a expansão da produção agrícola ocorre em ritmo difícil de acompanhar com a infraestrutura disponível. A falta de armazéns adequados pode elevar custos, pressionar a margem dos produtores e contribuir para perdas de produtos.

A demora na concessão de licenças para obras também aparece entre os entraves apontados pelos especialistas. Projetos de infraestrutura podem permanecer parados mesmo quando já contam com estudos e recursos para execução.

Outra medida defendida é ampliar a integração entre os diferentes meios de transporte, incluindo ferrovias e hidrovias, para reduzir a dependência do transporte rodoviário.

A conectividade no campo também exige atenção. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados no levantamento indicam que mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet em 2024, o equivalente a aproximadamente 15% do total.

Para os especialistas, a ampliação da infraestrutura depende de investimentos públicos e privados. Entre as alternativas estão concessões, privatizações e parcerias público-privadas, acompanhadas de regras que ofereçam segurança jurídica aos investidores.

Comunicação e valorização do agronegócio

Além dos desafios financeiros e logísticos, o setor enfrenta dificuldades relacionadas à sua imagem no Brasil e no exterior.

O professor Carlos Eduardo de Freitas Vian considera necessário desenvolver estratégias de comunicação que apresentem a contribuição do agronegócio para a economia, a segurança alimentar, a inovação e a sustentabilidade. Ao mesmo tempo, avalia que a comunicação deve reconhecer as fragilidades do setor e demonstrar disposição para enfrentá-las.

Os especialistas defendem a participação conjunta do governo, das associações e das empresas na construção dessa estratégia.

Leandro Gilio cita o café colombiano como exemplo de produto cuja origem se tornou um elemento de valorização no mercado internacional. Para ele, fortalecer a identificação dos produtos brasileiros com sua procedência pode contribuir para ampliar o reconhecimento no exterior.

O cumprimento das políticas ambientais e de combate ao desmatamento também é apontado como parte desse processo, especialmente diante das exigências de compradores internacionais.

Acesso a mercados e competitividade internacional

A expansão das exportações é outro desafio para o próximo governo. Embora o Brasil tenha presença relevante no comércio mundial de produtos agropecuários, os especialistas apontam a necessidade de ampliar acordos comerciais, diversificar destinos e reduzir a concentração das vendas em poucos países.

Leandro Gilio destaca que as barreiras tarifárias e as exigências sanitárias podem dificultar o acesso aos mercados. Por isso, recomenda que o país fortaleça o diálogo com parceiros comerciais e se antecipe a mudanças nas regras de importação.

A Abag propõe uma política nacional de inserção internacional e defesa da competitividade brasileira, com participação coordenada do governo, de instituições de pesquisa e do setor produtivo.

Na avaliação dos especialistas, acordos de longo prazo podem oferecer maior previsibilidade às exportações e estimular novos investimentos. Para isso, o Brasil precisa combinar competitividade produtiva, cumprimento das exigências dos países compradores e articulação diplomática.

Desafios exigem continuidade das políticas públicas

As propostas apresentadas pela Abag abrangem cinco áreas: financiamento e seguro rural; fortalecimento das cadeias estratégicas; infraestrutura agroindustrial; comunicação e valorização do setor; e inserção internacional.

Os especialistas ressaltam que medidas pontuais não serão suficientes para resolver todos os problemas. A expansão da infraestrutura, a redução da dependência de insumos importados e a abertura de mercados exigem planejamento, investimentos e continuidade entre diferentes governos.

O desafio para o próximo presidente será transformar essas prioridades em políticas públicas capazes de responder às dificuldades imediatas dos produtores e, ao mesmo tempo, preparar o agronegócio brasileiro para as exigências econômicas, climáticas e comerciais dos próximos anos.

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