Em poucos minutos, uma movimentada região de fronteira entre o Nepal e a China foi transformada em um cenário de destruição. Uma enorme correnteza formada por água, lama, gelo e pedras avançou pelo vale de Gyirong, no Tibete, atingindo construções, veículos e estruturas utilizadas diariamente por moradores, comerciantes e viajantes.
Imagens registradas por câmeras de segurança mostram o momento em que uma grande massa escura surge ao fundo e rapidamente ganha força. A enxurrada desce pela região e toma o vale, revelando a dimensão de um desastre que deixou mais de mil mortos e cerca de 3,9 mil desaparecidos no lado nepalês, segundo os números apresentados na reportagem.
Pesquisadores posteriormente relacionaram os movimentos registrados nas montanhas ao colapso de parte de uma geleira, que desencadeou a inundação.
Minutos antes, a fronteira estava movimentada
O ponto atingido, conhecido como Rasuwagadhi, era uma importante passagem entre o Nepal e o Tibete.
Na manhã do desastre, centenas de pessoas estavam na região. O assistente de imigração Tika Ram Pokharel, considerado o único funcionário sobrevivente do escritório nepalês, afirmou que o movimento estava acima do normal.
Segundo seu relato, aproximadamente 300 a 400 pessoas poderiam estar aguardando para atravessar a fronteira, enquanto outras estavam chegando do lado chinês.
Os registros eletrônicos mostram que 89 pessoas haviam concluído os procedimentos de saída do Nepal em direção ao Tibete, enquanto outras quatro fizeram o trajeto contrário.
O último registro no sistema de imigração ocorreu às 8h35, pelo horário local. Pouco depois, instrumentos instalados nas montanhas detectaram movimentos sísmicos.
Sinais da tragédia foram registrados nas montanhas
De acordo com a linha do tempo elaborada pelo Centro de Hidrologia e Pesquisa de Recursos Aquáticos do Nepal, sensores detectaram movimentações nas montanhas às 8h37, menos de dois minutos depois do último registro de imigração.
Pesquisadores posteriormente associaram o sinal ao rompimento de uma parte da geleira que provocou a inundação.
A China informou que a massa de lama levou aproximadamente sete minutos para percorrer o caminho entre a área de origem e a fronteira.
Esse intervalo extremamente curto ajuda a explicar por que muitas pessoas tiveram pouca ou nenhuma oportunidade de escapar.
Região concentrava casas, hotéis e comércio
A área atingida não era apenas um ponto de passagem internacional.
Em Ghatte Khola Bazar, localizado nas proximidades, havia entre 50 e 60 residências, além de hotéis, estabelecimentos comerciais e quatro instalações hidrelétricas.
O local também funcionava como parada de ônibus provenientes de Katmandu e reunia motoristas, ajudantes, guias turísticos e trabalhadores ligados ao transporte de cargas.
Muitos viajantes permaneciam ali enquanto aguardavam autorização para atravessar a fronteira.
A localização geográfica tornava a região especialmente vulnerável. O hidrólogo Ajay Dixit explicou que o terreno possui gargantas profundas e rios com forte correnteza, capazes de transportar grandes volumes de sedimentos e rochas.
Registros não conseguem determinar o paradeiro das vítimas
Embora os dados de imigração ajudem a reconstruir os momentos anteriores à tragédia, eles não permitem determinar onde cada pessoa estava quando a enxurrada atingiu a região.
O trajeto entre o escritório de imigração nepalês e a ponte que marca a fronteira podia levar de 15 a 20 minutos a pé.
Algumas pessoas poderiam estar seguindo para a ponte, outras aguardavam em Ghatte Khola e havia ainda quem estivesse se preparando para entrar no território chinês.
Quatro funcionários do escritório de imigração ficaram desaparecidos. O corpo do chefe da unidade foi encontrado posteriormente em uma região distante, enquanto a funcionária responsável pelos últimos registros continuava desaparecida.
Peregrinos indianos estão entre os desaparecidos
A fronteira também era utilizada por peregrinos que viajavam em direção ou retornavam do monte Kailash.
Mais de 100 cidadãos indianos podem ter estado na região no momento da inundação. O Ministério das Relações Exteriores da Índia informou que pelo menos 275 indianos permaneciam desaparecidos no Nepal.
Um dos casos envolve um grupo de peregrinos ligados à Fundação Isha. Segundo as informações divulgadas, 77 peregrinos e três funcionários desapareceram depois que a inundação atingiu a área.
Um relato que chamou atenção foi o de Sudipto Bhattacharya. Sua esposa, Subhrasree Chakraborty, fazia parte de um grupo com mais de 60 pessoas.
Às 7h57, ela enviou ao marido uma fotografia mostrando o carimbo de saída do Nepal em seu passaporte. Poucos minutos depois, informou que o grupo aguardava para entrar na China. Essa foi a última mensagem enviada por ela.
Número real de vítimas ainda é incerto
Os dados oficiais apontavam, até a atualização apresentada na reportagem, para cerca de 1 mil mortos e mais de 3,9 mil desaparecidos no Nepal.
Tika Ram Pokharel, porém, acredita que o número de pessoas atingidas na área específica da fronteira possa ser muito maior.
O funcionário estimou que entre 2 mil e 2,5 mil pessoas poderiam ter sido atingidas pela enchente. Essa estimativa, entretanto, não foi confirmada de forma independente e não deve ser confundida com os números oficiais.
O cenário de destruição dificulta ainda mais a localização das vítimas.
Uma equipe chinesa com 21 socorristas chegou a Gyirong em 28 de agosto. Um dos integrantes afirmou à imprensa estatal chinesa que, até onde era possível observar, restavam principalmente ruínas.
Tragédia atinge uma importante rota comercial
Além da dimensão humanitária, o desastre também provocou impactos econômicos.
Rasuwagadhi é considerada uma das principais portas de entrada para o comércio entre Nepal e China. Segundo dados apresentados na reportagem, a passagem representa aproximadamente 33% das trocas comerciais entre os dois países.
Diariamente, dezenas de caminhões utilizavam a rota para transportar eletrônicos, máquinas, veículos, frutas, roupas e outros produtos em direção a Katmandu.
A passagem também concentrava uma parcela significativa das importações de veículos elétricos chineses feitas pelo Nepal.
Com o fechamento da fronteira, o país passou a depender ainda mais de outras rotas comerciais, entre elas Tatopani, que também enfrentava restrições temporárias.
Região já havia sido atingida por enchentes
A tragédia ocorreu pouco tempo depois de outro episódio grave na mesma região.
Em julho de 2025, fortes enchentes provocaram o fechamento de Rasuwagadhi por aproximadamente seis meses. A Ponte da Amizade, estradas e uma subestação hidrelétrica foram afetadas.
A passagem foi reaberta em janeiro de 2026, após a construção de uma ponte temporária pela China, e o movimento voltou a crescer nos meses seguintes.
Autoridades chinesas informaram que mais de 100 mil pessoas haviam atravessado a fronteira de Gyirong até junho. Dados do Nepal registraram mais de 53 mil chegadas e partidas em Rasuwagadhi entre janeiro e meados de julho.
Desastre reacende debate sobre infraestrutura
O episódio também levantou discussões sobre a necessidade de o Nepal diversificar suas rotas comerciais e repensar projetos de infraestrutura em áreas sujeitas a eventos extremos.
A região faz parte de planos para uma futura ligação ferroviária entre o Nepal e a China através do Himalaia.
Para especialistas citados na reportagem, a concentração de estruturas e atividades econômicas ao longo de um mesmo sistema fluvial aumenta a exposição aos riscos naturais.
Enquanto as equipes de resgate continuam tentando localizar desaparecidos, famílias permanecem em busca de informações sobre parentes que estavam na região.
Para quem sobreviveu, como Tika Ram Pokharel, a tragédia também deixou a lembrança de alertas que já existiam. O funcionário contou que as enchentes anteriores haviam despertado preocupação entre os trabalhadores da fronteira, que chegaram a conversar sobre possíveis rotas de fuga pelas montanhas.
Desta vez, porém, muitos não tiveram tempo para escapar.
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