Em meio a terremotos, guerras, enchentes e outras situações de emergência, o trabalho voluntário tem se mostrado uma importante ferramenta de acolhimento e reconstrução emocional. No Brasil e em outros países, profissionais e voluntários têm colocado conhecimento, tempo e disposição a serviço de pessoas que enfrentam momentos de grande fragilidade.
No Dia Nacional do Voluntariado, celebrado em 28 de agosto, histórias de quem atua nessa área mostram que a solidariedade não beneficia apenas quem recebe ajuda. Para muitos voluntários, participar dessas iniciativas também representa uma forma de dar novo significado à própria trajetória.
Psicologia em situações de desastre
Com mais de quatro décadas de experiência profissional, a psicóloga Esly Carvalho decidiu utilizar seus conhecimentos em ações humanitárias. Especialista no atendimento de pessoas que passaram por situações traumáticas, ela passou a capacitar profissionais para atuar diante de eventos que provocam forte impacto emocional.
Uma das abordagens utilizadas é o EMDR, método psicoterapêutico empregado no tratamento de experiências traumáticas e memórias dolorosas.
Na Venezuela, após um terremoto que provocou milhares de mortes, Esly participou da formação de profissionais locais para ampliar a capacidade de atendimento psicológico. Mais de uma centena de profissionais receberam treinamento e passaram a atender pessoas afetadas pelo desastre.
O trabalho também possibilitou a criação de uma rede de atendimento a distância, permitindo que profissionais de saúde mental oferecessem suporte a pessoas que estavam em regiões atingidas ou tinham dificuldade de acesso presencial.
Para a psicóloga, uma das principais forças do voluntariado está justamente na capacidade de multiplicar conhecimento.
Quando seis pessoas se tornam milhares
Outra iniciativa nasceu em 2017, em São Paulo, a partir da experiência de seis amigos que haviam enfrentado problemas relacionados à saúde mental.
O grupo começou colocando mensagens de apoio em locais públicos, acompanhadas de um número de telefone para que pessoas em sofrimento pudessem procurar ajuda. A iniciativa cresceu e deu origem ao Projeto Help, que atualmente reúne milhares de voluntários.
O projeto promove palestras, atividades de prevenção e momentos de escuta em locais públicos, como parques, escolas e terminais de transporte.
Uma das ações é o chamado “Cantinho do Desabafo”, espaço criado para que as pessoas possam conversar e serem ouvidas.
Os voluntários relatam que adolescentes e jovens estão entre os públicos que mais procuram ajuda. Entre os assuntos apresentados estão ansiedade, depressão, solidão, dependência tecnológica e problemas relacionados às apostas online.
Prevenção também é uma forma de cuidado
Em Brasília, o trabalho voluntário ganhou força a partir da preocupação com o sofrimento emocional de jovens, inclusive dentro das Forças Armadas.
O coordenador local do projeto, Thiago Domingos, passou a atuar como voluntário depois de tomar conhecimento de casos de suicídio entre jovens militares. Segundo ele, a proposta é oferecer prevenção e acolhimento principalmente a pessoas que não possuem condições financeiras para buscar acompanhamento psicológico particular.
Além dos atendimentos individuais e dos espaços de escuta, os voluntários realizam palestras em escolas. Nesses encontros, aparecem relatos relacionados a bullying, conflitos familiares e outras situações que podem afetar a saúde emocional.
A equipe também conta com psicólogos que participam regularmente das atividades.
Solidão e falta de vínculos
Para a psicóloga Juliana Cei, o voluntariado também revelou uma realidade preocupante: muitas pessoas têm poucas oportunidades de estabelecer vínculos e conversar sobre aquilo que estão vivendo.
Segundo ela, existe uma sensação crescente de solidão, enquanto a rotina acelerada reduz os momentos de convivência e construção de redes de apoio.
Durante os atendimentos voluntários, Juliana afirma ter percebido uma procura significativa de mulheres, que relatam situações delicadas e buscam um espaço seguro para falar.
Para ela, uma conversa pode representar o início de uma mudança. Em alguns casos, pessoas que inicialmente procuram ajuda acabam despertando o desejo de também contribuir com outras pessoas no futuro.
Espaços seguros para pessoas trans
O voluntariado também pode funcionar como uma importante rede de apoio para grupos que enfrentam situações específicas de vulnerabilidade.
O psicólogo Lucas Hedler criou um grupo de apoio voltado a pessoas trans, com o objetivo de oferecer um ambiente seguro para compartilhar experiências, inseguranças e dificuldades.
A proposta considera que muitas pessoas trans enfrentam conflitos familiares, rejeição e situações de violência que podem provocar impactos profundos na saúde emocional.
Lucas também pretende ampliar sua atuação voluntária e desenvolver novos projetos destinados a esse público.
A força de ouvir
Embora cada iniciativa tenha uma proposta diferente, todas partem de um princípio semelhante: oferecer presença, escuta e acolhimento pode fazer diferença na vida de alguém que está atravessando uma situação difícil.
O voluntariado não substitui tratamentos médicos ou psicológicos quando eles são necessários, mas pode contribuir para aproximar pessoas de redes de apoio e serviços especializados.
Para quem enfrenta sofrimento emocional, existem serviços gratuitos que podem ser procurados no Brasil, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, além da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS).
Mais do que doar dinheiro ou bens, o voluntariado também pode significar doar tempo, conhecimento e disposição para ajudar. Em situações de crise, essa atitude pode ser o primeiro passo para reconstruir vínculos e fortalecer comunidades.
Onde buscar ajuda
CVV – Centro de Valorização da Vida: telefone 188, com atendimento gratuito.
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): serviço integrado ao SUS para atendimento em saúde mental.
Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar os serviços de emergência ou uma unidade de saúde.
**Informações via Agência Brasil




