O mês de junho se destacou negativamente em Mato Grosso ao registrar o maior número de feminicídios do ano até o momento: 10 mulheres foram assassinadas, o que representa mais de um terço (34,4%) dos 27 casos ocorridos em 2025 no estado. O número é 42% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando 19 mulheres foram mortas até o final de junho.
A médica legista Alessandra Carvalho Mariano, que dirige o setor de Medicina Legal em Cuiabá, alerta que a violência extrema praticada por feminicidas tende a se repetir enquanto houver uma cultura que normaliza agressões contra mulheres desde a infância. “Esse tipo de criminoso nasce em um ambiente que banaliza a violência de gênero por meio de piadas, músicas e ideias machistas ensinadas dentro dos lares”, afirma.
Ela aponta que há um perfil comum entre os autores desses crimes: homens que desferem golpes brutais e, em alguns casos, chegam a mutilar e levar partes dos corpos das vítimas como se fossem troféus. Esses indivíduos convivem socialmente e podem agir em qualquer lugar — bares, ruas ou, com maior frequência, dentro de casa.
A especialista destaca ainda que muitos feminicídios poderiam ser evitados se sinais de alerta não fossem ignorados. Em geral, os agressores demonstram comportamentos de controle, ciúme excessivo e ameaças antes de cometerem o crime. Além dos casos de violência doméstica, também ocorrem os chamados “feminicídios comunitários”, nos quais a vítima não tem relação prévia com o assassino. Nesses casos, o criminoso pode abordar a mulher na rua, em festas ou pontos de ônibus, agindo com violência direta ou sedução.
Outro ponto de atenção são os riscos enfrentados por crianças e adolescentes desacompanhados em locais públicos, como saídas de escolas ou cursos. “Menores sozinhos estão vulneráveis a agressores, e os responsáveis podem ser responsabilizados por abandono de incapaz”, adverte Alessandra.
A diretora reforça que enfrentar o feminicídio exige mudanças profundas na forma como a sociedade educa meninos e meninas, e que a prevenção depende tanto da ação estatal quanto da conscientização familiar.




