A exposição cada vez maior da rotina dos artistas tem trazido à tona um tema que há décadas faz parte dos bastidores da música brasileira: o consumo de álcool antes e durante apresentações. Recentes relatos de cantores de sucesso mostram que a prática, muitas vezes associada à descontração e à conexão com o público, pode comprometer a qualidade dos shows e gerar consequências para a saúde física e emocional dos profissionais.
O assunto ganhou destaque após o cantor Nattan reconhecer publicamente que exagerou na bebida antes de uma apresentação em Maracanaú, no Ceará. Segundo o artista, o consumo de álcool influenciou diretamente seu desempenho no palco, levando-o a repetir músicas durante o show e gerando críticas de parte do público nas redes sociais.
O episódio se soma a uma série de depoimentos recentes de artistas que decidiram rever hábitos relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas durante a rotina de apresentações.
Murilo Huff, por exemplo, revelou que reduziu drasticamente o consumo de álcool nos shows após uma conversa com Luan Santana em 2022. O cantor contou que ficou impressionado ao descobrir que o colega se preparava para subir ao palco consumindo apenas água, mesmo sendo um dos maiores nomes da música sertaneja.
João Gomes também admitiu mudanças nos hábitos após ser diagnosticado com gordura no fígado. O cantor revelou que precisou abandonar costumes que faziam parte da rotina de apresentações para preservar a saúde.
Outro caso que chamou atenção foi o de Zé Neto, da dupla com Cristiano. O artista relatou ter enfrentado um período marcado pelo uso excessivo de álcool, medicamentos e cigarro enquanto lidava com problemas de saúde mental. Em 2024, a dupla chegou a interromper temporariamente as atividades para que o cantor pudesse tratar um quadro de depressão.
Cultura dos palcos e pressão por identificação com o público
Profissionais do setor musical apontam que o consumo de bebidas alcoólicas ainda é bastante presente em segmentos como o sertanejo e o forró. Segundo relatos de bastidores, alguns artistas utilizam a bebida como forma de criar uma imagem de proximidade com o público, transmitindo a ideia de que compartilham os mesmos hábitos e comportamentos dos fãs.
Entretanto, especialistas alertam que essa estratégia pode ultrapassar limites e comprometer a qualidade profissional das apresentações quando o consumo deixa de ser eventual e passa a interferir diretamente na performance.
Efeitos diretos na voz e no desempenho
Fonoaudiólogos especializados em voz destacam que o álcool não melhora o desempenho vocal, apesar de um antigo mito difundido no meio artístico. Pelo contrário, a bebida pode prejudicar significativamente a capacidade de cantar e controlar a voz.
Entre os principais impactos estão a desidratação das cordas vocais, redução da coordenação motora necessária para a execução musical, dificuldades respiratórias e perda da percepção do esforço vocal. Esses fatores podem resultar em desafinação, fadiga, erros de ritmo e aumento do risco de lesões nas pregas vocais.
Outro problema frequente é o refluxo gastroesofágico, condição agravada pelo consumo de álcool e que pode provocar irritações nas estruturas responsáveis pela produção vocal.
Especialistas ressaltam ainda que a intensa agenda de shows enfrentada por muitos artistas reduz o tempo necessário para recuperação do organismo, fazendo com que pequenos danos se acumulem ao longo dos anos.
Saúde mental também entra no debate
Além dos efeitos físicos, psicólogos alertam para os riscos emocionais associados ao consumo frequente de álcool em ambientes profissionais. A bebida pode criar uma falsa sensação de confiança e liberdade, mas também compromete memória, raciocínio, controle emocional e capacidade de tomada de decisão.
Segundo especialistas, quando um artista passa a acreditar que só consegue subir ao palco, gravar ou exercer atividades profissionais após consumir álcool, o comportamento pode indicar um quadro de dependência que exige acompanhamento especializado.
Nova geração demonstra mudança de postura
Embora o consumo de álcool faça parte da história da música popular brasileira e esteja associado a diversas figuras conhecidas do público, especialistas observam uma mudança gradual de comportamento entre artistas mais jovens.
A maior preocupação com saúde física, saúde mental, longevidade da carreira e preservação da voz tem levado muitos profissionais a repensarem hábitos antigos. O resultado é uma geração mais aberta a discutir desafios pessoais e a buscar equilíbrio entre vida artística, bem-estar e desempenho profissional.
Para especialistas da área da voz, essa mudança representa uma evolução importante para um setor em que o corpo e a saúde vocal são instrumentos fundamentais de trabalho.




