O comportamento do clima voltou a exigir atenção dos pesquisadores diante da possibilidade de formação de um El Niño de intensidade excepcional. A perspectiva de um fenômeno muito forte ocorre em um cenário de temperaturas globais elevadas e aumenta a preocupação com ondas de calor, secas, incêndios, chuvas intensas e outros eventos extremos.
Para compreender o que está acontecendo no Oceano Pacífico e projetar seus possíveis efeitos, cientistas utilizam diferentes fontes de informação. Instrumentos instalados no oceano permitem acompanhar as mudanças em tempo real, enquanto formações naturais, como estalagmites encontradas em cavernas, funcionam como verdadeiros arquivos climáticos de milhares de anos.
Como o El Niño se forma
Em condições normais, correntes de água fria sobem próximo à costa do Peru, trazendo nutrientes para a superfície do oceano. Ao mesmo tempo, os ventos alísios deslocam águas mais quentes em direção à região da Indonésia.
Durante o El Niño, esses ventos perdem força. Com isso, a massa de água quente se desloca para o leste do Pacífico e provoca alterações na circulação atmosférica.
Essa mudança ajuda a explicar por que um fenômeno originado no Pacífico consegue interferir no clima de regiões localizadas a milhares de quilômetros de distância.
O fenômeno que mudou a previsão climática
Embora o El Niño seja conhecido há séculos, a ciência nem sempre conseguiu dimensionar antecipadamente sua intensidade.
O episódio de 1982 e 1983 surpreendeu pesquisadores e provocou impactos importantes em diferentes partes do planeta. No Brasil, houve períodos de seca severa em algumas regiões e enchentes em outras.
A dimensão daquele evento contribuiu para a expansão dos sistemas de observação do Pacífico.
Uma das principais iniciativas foi a instalação de uma extensa rede de boias capazes de registrar informações sobre temperatura do oceano, ventos e outras condições atmosféricas. Os dados são transmitidos por satélite e utilizados tanto em pesquisas quanto na elaboração de previsões.
Cavernas funcionam como arquivos do clima
Além da tecnologia moderna, pesquisadores também recorrem à própria natureza para entender como o clima se comportou no passado.
Em cavernas da Mata Atlântica, formações rochosas como as estalagmites preservam informações sobre as condições ambientais de milhares de anos.
Essas estruturas crescem lentamente conforme a água atravessa as rochas e deposita minerais. Ao longo do tempo, cada camada formada pode registrar alterações nas condições de chuva e umidade.
Em algumas cavernas, barragens naturais também ajudam a identificar períodos de grandes enchentes. Quando a água sobe e depois recua, deixa sedimentos nas estruturas rochosas.
Com a análise dessas marcas, os pesquisadores conseguem reconstruir episódios extremos ocorridos muito antes da existência dos instrumentos meteorológicos modernos.
Uma das estalagmites estudadas guarda aproximadamente 2.300 anos de registros climáticos, enquanto outras pesquisas já identificaram centenas de eventos extremos ao longo de mais de sete mil anos.
Um El Niño muito forte pode estar a caminho
Os dados atuais permitem acompanhar a evolução do fenômeno com antecedência. As projeções mencionadas pelos pesquisadores apontam para uma elevada possibilidade de o próximo El Niño atingir intensidade muito forte.
O cenário chama ainda mais atenção porque ocorre em um planeta que já apresenta temperaturas médias elevadas em razão das mudanças climáticas.
Segundo pesquisadores, essa combinação pode tornar mais difícil utilizar os padrões históricos como referência para prever exatamente o comportamento do clima.
Por isso, modelos matemáticos e sistemas de previsão precisam ser constantemente atualizados.
O pico do fenômeno é esperado para dezembro, mas seus efeitos podem permanecer durante os primeiros meses de 2027.
Brasil se prepara para possíveis impactos
No Brasil, pesquisadores também trabalham para ampliar a capacidade de previsão meteorológica.
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista (SP), vem ampliando a capacidade computacional utilizada na elaboração de previsões e pretende aumentar ainda mais essa estrutura.
A expectativa é que modelos mais avançados permitam identificar com maior antecedência períodos de calor extremo, estiagem e chuvas intensas.
Calor e seca aumentam preocupação com incêndios
Entre os possíveis impactos está a ocorrência de temperaturas acima da média em grande parte do território brasileiro.
Ondas de calor prolongadas podem representar riscos principalmente para idosos, pessoas com problemas de saúde e populações que vivem em condições mais vulneráveis.
Na Amazônia, a combinação de calor e redução das chuvas pode elevar o risco de incêndios florestais.
Pesquisadores ressaltam, porém, que o fogo na região normalmente depende de uma fonte de ignição provocada pela atividade humana. A vegetação seca e as condições meteorológicas podem favorecer a propagação das queimadas, mas o incêndio não costuma começar espontaneamente.
Impactos ultrapassam fronteiras
Os efeitos associados ao El Niño também podem aparecer simultaneamente em diferentes continentes.
Na Indonésia, períodos de menor precipitação podem favorecer incêndios florestais e afetar ecossistemas. Na China, eventos de chuva intensa podem provocar enchentes.
Na América do Sul, mudanças nas condições meteorológicas também podem atingir áreas de montanha e comprometer estradas e rotas utilizadas para o transporte de mercadorias.
A ocorrência simultânea de eventos extremos em grandes regiões produtoras pode ainda gerar consequências econômicas, especialmente sobre a produção e os preços dos alimentos.
Tecnologia ajuda a antecipar deslizamentos
O avanço do monitoramento climático também vem sendo aplicado à prevenção de desastres associados às chuvas.
No Rio Grande do Sul, pesquisadores mapearam mais de 17 mil deslizamentos registrados após os eventos extremos de 2024.
Atualmente, drones equipados com sensores são utilizados para identificar sinais de instabilidade em áreas que podem apresentar risco, inclusive locais onde a vegetação dificulta a observação do terreno.
Em propriedades rurais, equipamentos como inclinômetros também podem acompanhar movimentações do solo e emitir alertas quando determinadas alterações ultrapassam os parâmetros considerados seguros.
Informação pode ajudar a salvar vidas
Para os pesquisadores, tecnologia e monitoramento precisam estar acompanhados de informação para a população.
Reconhecer sinais como rachaduras no solo, movimentação de encostas e alterações no terreno pode permitir que moradores acionem as autoridades antes que um deslizamento aconteça.
A combinação entre ciência, tecnologia, sensores, monitoramento e educação amplia a capacidade de resposta diante dos eventos extremos.
O desafio para os próximos anos será justamente transformar os dados obtidos por satélites, boias, supercomputadores e registros naturais em informações capazes de orientar decisões com antecedência e reduzir os impactos sobre comunidades, infraestrutura, produção agrícola e meio ambiente.
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