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Entenda a técnica usada por atletas que bochecham bebida e cospem durante partidas

Método conhecido como “bochecho de carboidrato” estimula o cérebro sem fornecer energia ao organismo e pode gerar pequeno ganho de desempenho em momentos de alta intensidade.

🕒 Publicado em 08/07/2026 às 08:53

Uma cena recorrente durante a Copa do Mundo de 2026 chamou a atenção dos torcedores e movimentou as redes sociais: diversos jogadores foram flagrados colocando uma bebida na boca e, logo em seguida, cuspindo o líquido em vez de engoli-lo. O gesto despertou curiosidade e gerou diferentes teorias, mas especialistas explicam que, em muitos casos, a prática pode estar relacionada a uma estratégia utilizada no esporte de alto rendimento.

Conhecida na literatura científica como “bochecho de carboidrato” (carbohydrate mouth rinse), a técnica consiste em manter por alguns segundos uma bebida rica em carboidratos na boca e descartá-la sem ingestão.

Segundo o endocrinologista Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o benefício não está na absorção de energia, mas na resposta que o cérebro produz ao detectar a presença do carboidrato.

Cérebro interpreta que há energia disponível

Ao entrar em contato com a cavidade bucal, o carboidrato é identificado por receptores sensoriais que enviam sinais ao sistema nervoso central.

Essa estimulação ativa regiões cerebrais relacionadas ao controle motor, tomada de decisões e desempenho cognitivo durante atividades físicas intensas, incluindo o córtex pré-frontal.

Na prática, o atleta passa a perceber menor sensação de esforço e consegue sustentar um ritmo elevado por mais tempo, mesmo sem ingerir qualquer quantidade de glicose.

O especialista ressalta que não ocorre digestão nem absorção do carboidrato, ou seja, o organismo não recebe calorias adicionais. O efeito acontece exclusivamente pela resposta cerebral ao estímulo sensorial.

Ganho é pequeno, mas comprovado

Os estudos científicos mostram que o método pode proporcionar melhora de desempenho entre 1% e 3%, índice considerado discreto para praticantes recreativos, mas relevante em competições de alto nível, nas quais pequenas diferenças podem definir o resultado.

Uma revisão publicada na revista científica Nutrients analisou onze pesquisas sobre o tema e identificou melhora de desempenho em nove delas, com ganhos variando entre 1,5% e quase 12% em exercícios de intensidade moderada a alta realizados por aproximadamente uma hora.

Grande parte das pesquisas foi desenvolvida com ciclistas e corredores, em atividades com duração entre 30 e 75 minutos.

Técnica pode ser útil em momentos específicos do futebol

Embora uma partida de futebol dure pelo menos 90 minutos, Fernando Valente explica que o bochecho de carboidrato pode ser vantajoso principalmente em momentos decisivos do jogo, quando o desgaste físico é maior e o atleta precisa manter elevado nível de concentração e intensidade.

Nessas situações, a estratégia pode ajudar a reduzir a percepção de fadiga durante disputas importantes ou nos minutos finais de partidas equilibradas.

Por que não engolir a bebida?

A principal razão para descartar o líquido é evitar desconfortos gastrointestinais.

Durante exercícios intensos, bebidas concentradas em carboidratos podem provocar sensação de estômago cheio, náuseas e outros sintomas capazes de comprometer o rendimento esportivo.

Ao apenas bochechar a solução, o atleta obtém o estímulo cerebral sem sobrecarregar o sistema digestivo.

Método tem limitações

O especialista destaca, no entanto, que a técnica não substitui a reposição energética quando o organismo realmente necessita de combustível.

Em atividades prolongadas ou quando as reservas de glicogênio já estão reduzidas, a ingestão efetiva de carboidratos continua sendo indispensável para manter o desempenho físico.

Por isso, exercícios superiores a aproximadamente 75 minutos costumam exigir consumo real de carboidratos, e não apenas o estímulo sensorial promovido pelo bochecho.

Nem todo jogador está usando essa estratégia

Apesar da repercussão durante a Copa do Mundo, Fernando Valente ressalta que não é possível afirmar que todos os atletas flagrados cuspindo líquido estejam utilizando o bochecho de carboidrato.

O gesto também pode estar relacionado a hábitos individuais, descarte de água, desconforto bucal ou outras estratégias adotadas pelas equipes durante as partidas.

Sem confirmação dos próprios jogadores ou das comissões técnicas, não há como concluir que a técnica tenha sido empregada em cada caso observado.

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