O avanço das Inteligências Artificiais (IAs) generativas, capazes de manter conversas e responder perguntas com fluidez, tem atraído usuários que buscam apoio emocional ou até mesmo uma forma alternativa de terapia. O fácil acesso, a disponibilidade 24 horas por dia e o tom neutro e acolhedor fazem com que algumas pessoas optem por conversar com essas ferramentas em vez de procurar um psicólogo. No entanto, especialistas alertam: as IAs não foram desenvolvidas para prestar atendimento terapêutico e, em muitos casos, podem até intensificar sintomas de transtornos mentais.
Segundo Luiz Freitas, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e doutor em Teoria e Pesquisa do Comportamento, a busca por IA em contextos terapêuticos tem crescido, mas esse uso ainda é inadequado. “Essas tecnologias podem oferecer conforto momentâneo, mas não têm a estrutura necessária para promover o autoconhecimento e o enfrentamento de emoções, como acontece em uma terapia profissional”, afirma.
Um dos principais problemas está na forma como a IA interage com o usuário: ela tende a validar automaticamente as opiniões e sentimentos expressos, sem questionar ou provocar reflexão — algo essencial no processo terapêutico. “A terapia profissional confronta, orienta e incentiva a tomada de decisões conscientes, sem gerar dependência”, explica o professor.
O relato de uma jovem universitária de 20 anos ilustra esse risco. Após dificuldades em seu relacionamento, ela recorreu a uma IA para obter apoio emocional. “No começo, piorou a situação. A ferramenta sempre dizia que eu estava certa, o que alimentou ainda mais minha crise. Só melhorei quando tentei usar um prompt mais neutro, mas ainda assim percebi que não era igual a uma conversa com um profissional de verdade”, contou a estudante, que preferiu não se identificar.
O professor e pesquisador em IA da UFMT, Thiago Meirelles Ventura, reforça que essas ferramentas funcionam com base em previsões de texto — elas não compreendem sentimentos humanos. “A IA apenas estima a próxima palavra mais provável com base em padrões de linguagem. Essa habilidade cria uma ilusão de coerência e empatia, mas é importante lembrar que não existe compreensão real”, explica.
Outro risco apontado é o fenômeno conhecido como “alucinação da IA” — quando a ferramenta gera informações falsas com aparência de verdade. Isso pode ser ainda mais grave ao lidar com temas delicados, como a saúde mental.
Embora já existam IAs que cobram por supostos atendimentos psicológicos, esses sistemas ainda não foram testados de forma científica dentro dos parâmetros da psicologia. Luiz Freitas alerta que o uso terapêutico dessas tecnologias deve passar por etapas rigorosas de desenvolvimento e validação antes de serem consideradas seguras.
Apesar das limitações atuais, os especialistas reconhecem que a IA pode ter um papel complementar no futuro. “Ela pode se tornar uma porta de entrada para quem não tem acesso a atendimento psicológico, seja por questões financeiras, geográficas ou por preconceito”, avalia Ventura. No entanto, ambos os especialistas concordam: ainda é cedo para substituir o contato humano no cuidado da saúde mental.





