A investigação sobre a morte da empresária Andréia Gaspar, de 51 anos, após uma série de procedimentos estéticos em Goiânia trouxe à tona relatos de outras pacientes que afirmam ter enfrentado problemas físicos e psicológicos depois de cirurgias realizadas pelo médico otorrinolaringologista Lessandro Martins.
A Polícia Civil apura as circunstâncias da morte de Andréia e também investiga a atuação do profissional. Durante o andamento do caso, outras mulheres procuraram a reportagem e relataram experiências que, segundo elas, deixaram sequelas e dificuldades no período pós-operatório.
Ao todo, foram ouvidas nove mulheres que vivem em diferentes regiões do Brasil, além de uma ex-paciente que atualmente mora nos Estados Unidos.
Os relatos mencionam alterações na aparência, deformações no rosto, dores persistentes e dificuldades para obter acompanhamento após os procedimentos.
É importante ressaltar, porém, que as denúncias estão sendo investigadas e não comprovam, por si só, a existência de crime ou erro médico.
Paciente afirma ter ficado com sequelas após cirurgias
Uma das mulheres entrevistadas pela reportagem trabalha como empregada doméstica e optou por não mostrar o rosto.
Segundo ela, a decisão está relacionada às marcas que afirma ter adquirido depois dos procedimentos realizados pelo médico.
A paciente conta que inicialmente procurou Lessandro Martins com o objetivo de realizar uma cirurgia no nariz. Durante as consultas, porém, afirma que o médico teria sugerido outros procedimentos.
Ela diz que, mesmo sem condições financeiras para realizar todas as intervenções, acabou passando por três cirurgias com o profissional. Ao todo, calcula ter desembolsado aproximadamente R$ 50 mil.
De acordo com o relato, o resultado ficou distante do esperado.
A mulher afirma que passou a apresentar alterações no rosto e no nariz e que teria ficado com uma depressão na região da testa.
Ela também conta que tentou procurar o próprio médico para buscar ajuda e uma possível correção dos resultados.
Segundo a paciente, as consequências ultrapassaram os aspectos físicos e afetaram também sua vida pessoal. Ela afirma que passou a evitar viagens para a região Nordeste, onde vivem familiares, por receio da reação e do julgamento de outras pessoas.
Outra paciente questiona procedimento realizado
Outra mulher ouvida pela reportagem, identificada como Angela, afirma ter realizado três procedimentos com Lessandro Martins, envolvendo nariz, pálpebras e sobrancelhas, além de preenchimento facial.
Ela relata que teria sido informada inicialmente sobre uma técnica que envolveria uma pequena incisão para elevar a sobrancelha.
Segundo Angela, após acordar da cirurgia, percebeu a presença de um fio na região do rosto.
A paciente afirma que não teria autorizado previamente a colocação do material e que o procedimento não teria sido explicado dessa forma antes da cirurgia.
Com o passar do tempo, Angela diz ter percebido mudanças em sua aparência e afirma que seu rosto teria apresentado queda.
Ela também relata alterações no nariz, além de dores, coceira e sensação de rigidez na região.
Paciente diz que foi investigada por possível doença autoimune
Ainda segundo Angela, diante dos problemas que passou a relatar, o médico teria levantado a possibilidade de ela possuir alguma doença autoimune.
A paciente afirma que procurou especialistas, realizou exames de sangue e testes de alergia, mas diz que os resultados não apontaram uma doença autoimune.
Ela também relata dificuldades para conseguir acompanhamento posteriormente.
Segundo Angela, tentou procurar o profissional em diferentes ocasiões, mas afirma que seus atendimentos teriam sido cancelados várias vezes.
A paciente diz que ainda convive com dores e outros sintomas que atribui aos procedimentos realizados.
Morte de Andréia abriu novos questionamentos
Os relatos das pacientes surgiram no contexto da investigação sobre a morte de Andréia Gaspar.
Moradora da Espanha, a empresária viajou ao Brasil para realizar procedimentos estéticos no rosto. Segundo familiares, ela teria conhecido o trabalho de Lessandro Martins por meio das redes sociais e realizado parte da preparação para as cirurgias à distância.
Em 11 de agosto, Andréia passou por seis procedimentos que duraram aproximadamente sete horas. O pacote teria custado R$ 118 mil.
Após a cirurgia, a empresária foi encaminhada para um quarto. Conforme informações da família, ela apresentou sangramento e inchaço e, posteriormente, teria tido dificuldades para respirar.
Horas depois, sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu.
A Polícia Civil investiga se houve eventual responsabilidade criminal relacionada à morte. Entre as linhas de apuração está a possibilidade de homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
O delegado responsável pelo caso afirmou que será necessário analisar tanto os procedimentos cirúrgicos quanto o atendimento prestado no período posterior às intervenções.
O corpo de Andréia foi exumado em 28 de agosto, em uma ação acompanhada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil.
Defesa nega negligência
A defesa de Lessandro Martins nega que tenha ocorrido negligência ou omissão no atendimento prestado a Andréia.
O advogado Pedro Fonseca afirmou que a paciente foi monitorada durante o período em que permaneceu no hospital e que apresentava parâmetros considerados adequados.
Segundo a defesa, não houve falta de atendimento médico nem demora na assistência.
Sobre os relatos apresentados por outras pacientes, o advogado afirmou que cada situação precisa ser analisada individualmente.
A defesa também declarou que, caso alguma paciente queira buscar atendimento, o médico estaria disposto a recebê-la.
Conselho de Medicina também apura denúncias
O Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) informou que as denúncias apresentadas contra Lessandro Martins estão sendo analisadas em processos que tramitam sob sigilo.
Dessa forma, não há, até o momento, conclusão pública do conselho sobre as acusações relatadas pelas pacientes.
A Polícia Civil continua investigando a morte de Andréia e as circunstâncias relacionadas aos procedimentos realizados.
O caso também passou a reunir os relatos de outras mulheres que afirmam ter sofrido consequências após cirurgias feitas pelo mesmo médico. Caberá às autoridades avaliar individualmente essas denúncias e verificar se existe alguma relação entre os problemas relatados e os procedimentos realizados.
As investigações seguem em andamento, e eventual responsabilidade civil, administrativa ou criminal dependerá da análise das provas e das conclusões das autoridades competentes.




