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Teatro Universitário de Cuiabá: uma história de ousadia, arte e cultura

Da criação do espaço à histórica estreia de “Macunaíma”, teatro da UFMT tornou-se referência cultural em Mato Grosso

🕒 Publicado em 19/08/2026 às 09:06

A história do Teatro Universitário de Cuiabá nasceu de uma vontade que, inicialmente, parecia maior do que as possibilidades oferecidas pela estrutura pública da época. Mato Grosso ainda não contava com um teatro moderno, equipado com palco profissional, acústica adequada, camarins e sistemas de iluminação capazes de receber grandes espetáculos.

Foi nesse cenário que jovens ligados à então nascente Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), liderados por Gabriel Novis Neves, defenderam a criação de um espaço que pudesse colocar Cuiabá no circuito das grandes produções artísticas.

A proposta encontrou resistência burocrática. A construção de um teatro propriamente dito não foi autorizada. A alternativa encontrada foi utilizar recursos destinados oficialmente à construção do auditório da Biblioteca Central.

Na prática, porém, o projeto ganhou características de um verdadeiro teatro profissional.

Especialistas ajudaram a transformar o projeto

Para que o espaço tivesse qualidade técnica, profissionais especializados foram trazidos a Cuiabá como professores visitantes.

Entre eles estava o italiano Aldo Calvo, responsável pela cenotécnica. O profissional possuía experiência em projetos de grande importância, incluindo a reforma do Teatro de Milão no período posterior à Segunda Guerra Mundial e trabalhos relacionados ao Teatro Nacional de Brasília e ao Teatro Guaíra, em Curitiba.

A acústica ficou sob responsabilidade do especialista polonês Igor Sresnewski.

O projeto original previa capacidade para aproximadamente 700 espectadores. No entanto, a preocupação com o conforto e principalmente com a qualidade acústica levou à redução do número de lugares para 510 poltronas.

A estrutura interna também recebeu soluções pouco convencionais. Nas paredes laterais foram instaladas grandes caixas contendo isopor e pneus, recurso utilizado para contribuir com o tratamento acústico do ambiente.

Um espaço pensado nos detalhes

A preocupação técnica também esteve presente na boca de palco, que recebeu uma grande cortina de veludo produzida especialmente para o espaço.

O sistema de iluminação foi desenvolvido com equipamentos que facilitavam a manutenção e contou com a supervisão de Aldo Calvo.

Já o foyer recebeu elementos que ajudaram a criar uma identidade própria para o teatro. Entre eles estão grandes tachos de cobre adquiridos na região ribeirinha do Rio Cuiabá.

A ideia partiu de Fernando Augusto Alves Pace, que também trabalhou, ao lado de Sresnewski, nas soluções relacionadas à acústica do salão de espera.

Professor e chefe de gabinete da Reitoria, Pace teve participação importante nas articulações necessárias para viabilizar os aspectos técnicos e artísticos do projeto.

Inauguração marcou a cultura de Mato Grosso

O Teatro Universitário foi inaugurado oficialmente em 26 de janeiro de 1982, em uma cerimônia que contou com a presença do então ministro da Educação e Cultura, Rubem Ludwig, além de reitores de universidades brasileiras reunidos no Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB).

Do lado externo, grupos de dança apresentaram manifestações do folclore regional, reforçando a presença da cultura mato-grossense na inauguração.

O espaço também ganhou uma obra de arte na área externa. A escultura localizada à direita da passarela de entrada, no jardim, é de autoria de Wlademir Dias Pino e representa as máscaras da comédia e da tragédia.

“Macunaíma” marcou a estreia artística

A primeira grande apresentação artística do Teatro Universitário ganhou um significado especial.

Durante uma visita às obras, os atores Glória Menezes e Tarcísio Meira teriam ficado impressionados com o espaço e sugerido que a peça “Macunaíma”, de Mário de Andrade, fosse escolhida para a estreia.

A sugestão foi aceita.

Fernanda Montenegro chegou a ser convidada para participar da montagem, mas agradeceu o convite e indicou Tônia Carrero para o papel, argumentando que a beleza da atriz combinava com a grandiosidade do teatro que estava nascendo.

No palco, Gabriel Novis Neves e Tônia Carrero deram as mãos em um momento que ficou marcado na história da inauguração artística.

A montagem de “Macunaíma” foi dirigida por Antunes Filho e apresentada pelo Teatro Universitário quatro dias antes de Gabriel deixar a Reitoria.

A peça teve quatro apresentações.

Curiosidades da montagem

A produção também ficou conhecida pelos recursos utilizados na composição visual dos personagens.

Para cada apresentação, a direção solicitava aproximadamente dez quilos de jornais e oito quilos de talco cirúrgico, materiais utilizados na caracterização.

Em determinados momentos da peça, o talco chegava a cobrir o corpo dos atores, reforçando o aspecto plástico da montagem.

O espetáculo explorava intensamente a relação entre personagens, cenários e iluminação, criando uma experiência visual que chamou a atenção do público.

Na primeira apresentação, as duas primeiras fileiras foram reservadas aos grupos amadores de Mato Grosso. Naquele período, existiam aproximadamente 24 grupos espalhados pelo estado.

A última sessão foi dedicada exclusivamente aos servidores da universidade.

Palco recebeu artistas de Mato Grosso, do Brasil e do exterior

Ao longo de sua trajetória, o Teatro Universitário se consolidou como espaço de circulação cultural e recebeu espetáculos de grande repercussão.

Entre os projetos de destaque está o Pixinguinha, que passou pelo teatro em 1983 e 1984 e retornou em 1995.

Por meio do projeto, artistas e grupos como Beth Carvalho, Renato Borghetti e Quinteto Violado chegaram ao palco cuiabano.

A programação nacional também contou com nomes como Fernanda Montenegro, Regina Duarte, Juca de Oliveira, Adriana Calcanhotto e Ana Botafogo, além de companhias e grupos como Tanarua, Cisne Negro e Balé Popular do Recife.

A programação internacional também marcou a trajetória do espaço, com apresentações do grupo Yamar, do Peru; da companhia de dança Di Tri, da Itália; e do mestre Cavour, da Bolívia.

Um patrimônio cultural de Cuiabá

Mais de quatro décadas depois de sua inauguração, o Teatro Universitário permanece associado à história cultural de Cuiabá e da Universidade Federal de Mato Grosso.

Sua trajetória começou com a iniciativa de jovens que desejavam ampliar os horizontes culturais da universidade e terminou por criar um espaço capaz de receber importantes nomes das artes cênicas e da música.

Entre arquitetura, soluções acústicas, obras de arte, espetáculos e encontros, o teatro se tornou parte da memória cultural de Mato Grosso.

Mais do que um auditório transformado em teatro, o espaço representa uma época em que a ousadia de estudantes, professores e gestores ajudou a criar uma estrutura que colocou Cuiabá no mapa da produção artística nacional e internacional.

Teatro Universitário – UFMT
Endereço: Avenida Fernando Corrêa da Costa, s/nº – Cuiabá (MT)
CEP: 78068-600
Telefone: (65) 3615-8373

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