A cidade de Ulaanbaatar, capital da Mongólia, tornou-se nesta segunda-feira (17) o centro das discussões internacionais sobre um dos desafios ambientais que mais afetam populações e economias: a degradação das terras e o avanço das secas.
A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) reúne representantes de 196 países e da União Europeia até 28 de agosto. O encontro busca transformar compromissos ambientais em ações concretas para recuperar ecossistemas, ampliar a segurança hídrica e alimentar e fortalecer a capacidade das comunidades de enfrentar períodos prolongados de estiagem.
A conferência também terá a missão de avançar em temas que ficaram sem consenso durante a COP16, realizada em 2024, em Riad, na Arábia Saudita.
Combate global às secas é um dos principais desafios
Um dos assuntos mais importantes da COP17 será a criação de um novo instrumento internacional voltado ao enfrentamento das secas.
A proposta ganhou força durante a COP16, especialmente entre países africanos, que defenderam a criação de um mecanismo juridicamente vinculante. Na ocasião, entretanto, não houve consenso entre os países participantes.
Agora, a expectativa é retomar as negociações e buscar uma estrutura capaz de fortalecer a prevenção, o planejamento e a resposta aos períodos de estiagem.
Segundo a secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), Yasmine Fouad, o número de países que desenvolveram planos nacionais contra a seca aumentou significativamente desde 2013.
A expectativa é que a nova conferência avance não apenas na elaboração de políticas, mas principalmente na implementação de medidas capazes de produzir resultados concretos.
Financiamento é considerado essencial
Outro grande desafio está relacionado aos recursos necessários para enfrentar a degradação das terras.
De acordo com Louise Baker, diretora-gerente do Mecanismo Global da UNCCD, seriam necessários aproximadamente US$ 1 bilhão por dia até 2030 para alcançar os objetivos internacionais de proteção e recuperação das terras.
O financiamento público continua sendo considerado fundamental para reduzir riscos e estimular investimentos privados.
A conferência também deverá discutir mecanismos capazes de aproximar empresas da agenda ambiental. Setores como alimentos e bebidas, moda, indústria farmacêutica e cosméticos dependem diretamente de matérias-primas produzidas em áreas ambientalmente saudáveis.
A restauração de terras, portanto, também é tratada como uma oportunidade econômica.
Segundo a UNCCD, cada dólar investido na recuperação de áreas degradadas pode gerar entre US$ 7 e US$ 30 em benefícios econômicos, dependendo das condições e dos projetos desenvolvidos.
Neutralidade da Degradação da Terra
Outro ponto central da COP17 será a Neutralidade da Degradação da Terra (LDN).
Mais de 130 países já estabeleceram metas voluntárias relacionadas ao conceito, que busca garantir que a quantidade e a qualidade das terras produtivas sejam mantidas ou ampliadas.
A estratégia segue três etapas principais: evitar, reduzir e reverter a degradação.
A preocupação vai além da preservação ambiental. A recuperação dos solos está diretamente ligada à produção de alimentos, à disponibilidade de água e à estabilidade econômica das comunidades.
A projeção apresentada durante a conferência aponta que, até 2050, será necessário produzir pelo menos 50% mais alimentos, enquanto aproximadamente 100 milhões de hectares de terras saudáveis e produtivas são perdidos todos os anos.
Brasil apresentará metas internacionais
O Brasil deverá aproveitar a COP17 para apresentar à comunidade internacional seu primeiro conjunto de metas relacionadas à Neutralidade da Degradação da Terra.
Levantamento realizado por órgãos públicos e instituições de pesquisa identificou aproximadamente 55 milhões de hectares de terras em processo de degradação em 2020.
O país pretende apresentar iniciativas relacionadas à conservação ambiental, proteção de territórios indígenas e comunidades tradicionais, além de ações de recuperação e restauração de áreas degradadas.
Para o governo brasileiro, essas medidas podem contribuir para o cumprimento das metas internacionais de recuperação das terras.
Povos indígenas terão participação ampliada
A participação de povos indígenas e comunidades tradicionais também ganha destaque nesta edição da conferência.
Durante a COP16, em 2024, foi aprovada uma proposta brasileira para criação do Caucus Indígena e de Comunidades Tradicionais, espaço oficial destinado à articulação política e à troca de experiências dentro da Convenção.
Na Mongólia, será a primeira vez que esse grupo terá participação formal de destaque na programação oficial.
A medida busca ampliar a presença de comunidades diretamente afetadas pela degradação dos solos, desertificação e secas nas discussões internacionais.
Além das populações tradicionais, a programação prevê fóruns e debates envolvendo juventude, comunidades locais, setor privado e pastoralistas.
Segurança alimentar e água também estão na agenda
As discussões da COP17 não ficarão restritas ao solo.
A programação inclui temas como segurança hídrica, sistemas alimentares, saúde dos solos, recuperação de pastagens e resiliência às secas.
A relação entre esses assuntos é direta: terras degradadas apresentam menor capacidade de produção, retenção de água e manutenção de ecossistemas, aumentando a vulnerabilidade de comunidades e atividades econômicas.
Por isso, os participantes defendem uma abordagem integrada entre as diferentes agendas ambientais das Nações Unidas.
Integração entre clima, biodiversidade e desertificação
Outro objetivo da conferência é ampliar a articulação entre as três principais convenções ambientais da ONU: mudanças climáticas, biodiversidade e combate à desertificação.
A avaliação é que os problemas estão interligados e precisam ser enfrentados de maneira coordenada.
A recuperação de áreas degradadas, por exemplo, pode contribuir simultaneamente para a conservação da biodiversidade, o armazenamento de carbono, a proteção dos recursos hídricos e a produção de alimentos.
Mongólia recebe debate global
Ao sediar a COP17, a Mongólia coloca em evidência sua própria experiência com processos de degradação das terras e avanço da desertificação.
Até 28 de agosto, governos e representantes da sociedade civil deverão discutir compromissos, mecanismos de financiamento e estratégias para transformar metas ambientais em ações efetivas.
A expectativa é que a conferência deixe resultados concretos para prevenção e enfrentamento das secas, recuperação dos solos e fortalecimento das comunidades que vivem diretamente os efeitos da degradação ambiental.
**Informações via Agência Brasil




