Uma história de separação, reencontro e afeto atravessou mais de cinco décadas e terminou com dois irmãos novamente lado a lado. Benedito Albino de Paula, de 76 anos, e Maria do Carmo de Paula, de 72, passaram 56 anos sem conviver e sem manter contato até que uma coincidência ajudou a aproximá-los novamente em Franca, no interior de São Paulo.
Os dois nasceram na região de Pedregulho (SP), mas tiveram suas trajetórias modificadas ainda na infância. A mãe morreu durante o parto de Maria, quando Benedito tinha apenas 3 anos. O pai se casou novamente e, posteriormente, após a morte da madrasta, os irmãos acabaram seguindo caminhos diferentes.
Maria foi acolhida por uma família em Franca e dedicou grande parte da vida aos cuidados da mulher que a criou. Benedito permaneceu ligado ao trabalho rural e atuou como lavrador em propriedades da região de Ribeirão Corrente.
Uma história que nunca foi esquecida
Benedito foi acolhido em 2010 pelo Lar de Idosos Eurípedes Barsanulfo, em Franca. Mesmo depois de tantos anos afastado da família, ele continuava contando aos funcionários sobre os irmãos e manifestando o desejo de reencontrá-los.
A oportunidade surgiu em 2018, quando uma voluntária da instituição ouviu a história e percebeu que conhecia a família responsável pelos cuidados de Maria.
A informação chegou à equipe do lar, que conseguiu localizar a irmã. O primeiro contato ocorreu por telefone. Depois da conversa inicial, a instituição ajudou a organizar o encontro presencial.
A aproximação foi acontecendo aos poucos. Os irmãos passaram a fazer visitas e começaram a reconstruir uma relação que havia sido interrompida quando ainda eram crianças.
Do reencontro à vida juntos
A convivência voltou a ser ainda mais próxima em 2021. Naquele ano, morreu a mulher que havia criado Maria, fazendo com que ela precisasse encontrar um novo lugar para morar.
Depois de permanecer por um período com familiares, Maria decidiu ir para o mesmo Lar de Idosos onde Benedito já vivia havia mais de uma década.
Assim, os dois irmãos voltaram a dividir o mesmo espaço pela primeira vez desde a infância.
Hoje, cada um mantém suas próprias atividades para ocupar o tempo. Maria, que não frequentou a escola e não aprendeu a ler, gosta de preencher cadernos com letras e palavras como forma de distração.
Benedito encontrou na pintura uma maneira de passar o tempo e também de deixar de lado, por alguns momentos, lembranças difíceis da trajetória que viveu.
Discussões também fazem parte da rotina
Depois de 56 anos separados, a convivência trouxe de volta até mesmo aquelas pequenas divergências comuns entre irmãos.
Maria, por exemplo, não gosta quando Benedito resolve tentar consertar objetos por conta própria. Segundo ela, ele costuma desmontar rádios e outros itens e nem sempre consegue colocá-los novamente em funcionamento.
Benedito admite que a irmã costuma ficar de olho em suas tentativas de conserto e reclama quando percebe que ele está fazendo algo que considera errado.
Apesar das brincadeiras e das pequenas discussões, a equipe do lar afirma que a relação entre os dois é marcada principalmente pelo cuidado.
Um sempre procura pelo outro
Segundo Bruna Gonçalves Xavier, gestora de desenvolvimento institucional da instituição, as diferenças entre os irmãos fazem parte da convivência, mas existe uma preocupação constante entre eles.
Quando um demora a aparecer ou sai da rotina habitual, o outro logo procura informações com os funcionários.
A equipe percebeu que, mesmo depois de tantas décadas separados, o vínculo familiar foi reconstruído de forma natural.
A preocupação aparece principalmente quando um deles não está por perto. Maria costuma perguntar onde Benedito está quando não consegue vê-lo, e ele demonstra a mesma preocupação quando perde a irmã de vista.
Um reencontro que virou nova história
A trajetória de Benedito e Maria mostra como os vínculos familiares podem ser reconstruídos mesmo depois de décadas de distância.
O que começou com uma separação ainda na infância e passou por mais de meio século sem contato transformou-se, desde 2018, em uma nova oportunidade de convivência. Hoje, os dois dividem não apenas o mesmo espaço, mas também pequenas rotinas, lembranças, brincadeiras e os cuidados que fazem parte da vida entre irmãos.
Depois de 56 anos longe um do outro, Benedito e Maria voltaram a ter aquilo que a infância havia interrompido: a presença diária de um irmão ao lado do outro.
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