O mercado internacional de petróleo enfrenta uma nova dúvida em meio à guerra envolvendo Estados Unidos e Irã: quanto petróleo realmente continua atravessando o Estreito de Hormuz?
Enquanto dados de empresas especializadas em rastreamento marítimo indicam uma forte redução no trânsito de petroleiros, o governo dos Estados Unidos afirma que o fluxo de petróleo pela região é muito maior do que os números observados pelos serviços independentes sugerem.
A divergência ganhou força depois que o secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, afirmou que a média de sete dias do volume de petróleo que deixava o Golfo pelo Estreito de Hormuz havia chegado a aproximadamente 9 milhões de barris por dia.
A declaração contrasta com estimativas de empresas como Kpler e Windward Intelligence, que acompanham a movimentação das embarcações por meio de transponders, imagens de satélite e outras tecnologias.
Dados apresentam diferenças significativas
Segundo estimativas utilizadas por analistas de Wall Street, aproximadamente 4 milhões de barris de petróleo por dia estariam conseguindo sair do Golfo Pérsico por meio de petroleiros.
A esse volume se somariam cerca de 7 milhões de barris diários redirecionados por países do Oriente Médio por meio de oleodutos e outras alternativas ao transporte marítimo pelo estreito.
Assim, o fluxo total estimado ficaria entre 11 milhões e 12 milhões de barris por dia, volume bastante inferior aos cerca de 20 milhões de barris diários que deixavam a região antes do início da guerra.
Wright, porém, apresentou uma estimativa muito diferente. Segundo o secretário, em 8 de agosto o volume total de petróleo que deixou o Golfo teria ultrapassado novamente a marca de 20 milhões de barris por dia.
A diferença entre as informações alimentou a discussão sobre a real dimensão do bloqueio e sobre a quantidade de petróleo que continua sendo transportada sem aparecer imediatamente nos sistemas tradicionais de monitoramento.
Rastreamento enfrenta novos desafios
A Kpler, uma das empresas utilizadas pelo mercado para acompanhar os fluxos de petróleo, afirma que seus dados são baseados em uma ampla rede de monitoramento.
A companhia conta com aproximadamente 13 mil receptores próprios, distribuídos por cerca de 190 países, e acompanha centenas de milhares de embarcações. Também utiliza uma rede de satélites em órbita baixa.
A empresa, entretanto, reconhece que o monitoramento ficou mais complexo diante da intensificação dos ataques a navios.
A Windward Intelligence também utiliza imagens de satélite e inteligência artificial para localizar embarcações mesmo quando os transponders são desligados.
Essa tecnologia permite acompanhar o que o mercado chama de frota-sombra, formada por navios que tentam ocultar localização, rota ou carga.
Número de embarcações ainda gera dúvidas
Um dos principais pontos de divergência está justamente na quantidade de navios observados atravessando o Estreito de Hormuz.
Antes da guerra, mais de 100 embarcações transitavam diariamente pela passagem estratégica.
Segundo dados de empresas de monitoramento citados na análise, foram observados aproximadamente cinco navios saindo do Estreito de Hormuz no dia em que o governo norte-americano afirmou que cerca de 20 milhões de barris haviam deixado a região do Golfo.
Para Matt Smith, diretor de pesquisa de commodities da Kpler, os números apresentados pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos não são compatíveis com aquilo que a empresa consegue observar.
A situação, porém, pode ser mais complexa.
De acordo com analistas, o aumento dos ataques promovidos pelo Irã contra embarcações, somado às ações de grupos aliados no Mar Vermelho, levou empresas de navegação a adotar medidas para esconder suas rotas e cargas.
Transponders desligados dificultam estimativas
Uma parcela crescente das embarcações passou a realizar trajetos clandestinos, desligando os equipamentos responsáveis por transmitir sua localização.
Segundo a Kpler, aproximadamente metade do tráfego observado no Estreito de Hormuz teria sido classificada como clandestina nas últimas semanas. Um mês antes, essa proporção era de aproximadamente um oitavo.
Isso significa que os dados disponíveis podem não representar integralmente o volume de petróleo efetivamente transportado.
A hipótese é que alguns navios permaneçam fora dos sistemas de rastreamento durante parte da viagem e voltem a transmitir suas posições somente quando estiverem em uma área considerada segura.
Caso isso esteja ocorrendo em escala significativa, os números oficiais de fluxo poderão ser revisados posteriormente.
Mercado começa a considerar mais de uma possibilidade
A divergência também provocou uma mudança na postura de alguns analistas.
Dan Pickering, fundador e diretor de investimentos da Pickering Energy Partners, afirmou que considera possível que as informações apresentadas pelo governo norte-americano estejam mais próximas da realidade do que os dados convencionais indicam.
A avaliação é compartilhada apenas como uma possibilidade diante das limitações atuais dos sistemas de monitoramento.
O economista sênior de clima e commodities da Capital Economics, Hamad Hussain, também reconheceu que a visão do mercado pode estar incompleta.
Para ele, o aumento dos transportes clandestinos torna mais difícil calcular com precisão quanto petróleo está deixando o Golfo Pérsico.
Estoques globais são o ponto de maior preocupação
A quantidade de petróleo que continua saindo pelo Estreito de Hormuz é importante porque influencia diretamente a velocidade de redução dos estoques globais.
Estimativas citadas na análise apontam que as reservas mundiais estão entre 1,5 bilhão e 1,9 bilhão de barris abaixo dos níveis registrados no início da guerra, dependendo da metodologia utilizada.
Os estoques acumulados antes do conflito funcionaram como uma espécie de colchão de segurança, evitando uma interrupção ainda mais grave no abastecimento internacional.
Se o volume de petróleo transportado pelo estreito for maior do que as estimativas atuais apontam, os estoques poderão ser recompostos mais rapidamente.
Isso também poderia contribuir para manter os preços internacionais do petróleo em níveis mais baixos por mais tempo.
Estreito continua estratégico para o mercado mundial
Mesmo com as divergências sobre os números, o ponto central permanece: o Estreito de Hormuz continua sendo uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo.
Quanto maior for o volume efetivamente transportado pela região, maior será o tempo disponível para que o mercado utilize seus estoques antes de enfrentar uma eventual escassez mais severa.
Por outro lado, se os dados de rastreamento estiverem próximos da realidade e os fluxos forem realmente muito inferiores aos níveis anteriores ao conflito, a pressão sobre as reservas tende a aumentar.
O cenário ainda é marcado por informações contraditórias, dificuldades de monitoramento e mudanças constantes nas rotas utilizadas pelas embarcações.
Como resumiu Pickering na análise, o mercado pode continuar acompanhando os dados oficiais com cautela e confrontando essas informações com os registros independentes disponíveis.
No fim, a questão central permanece sem uma resposta definitiva: quanto petróleo está realmente conseguindo atravessar o Estreito de Hormuz?
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