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NOTÍCIAPartido árabe pode ser decisivo para oposição conquistar o governo de Israel

Partido árabe pode ser decisivo para oposição conquistar o governo de Israel

Ra’am aparece como possível aliado estratégico nas eleições de 27 de outubro, mas divergências políticas e resistência de setores conservadores dificultam a formação de uma coalizão contra Benjamin Netanyahu.

🕒 Publicado em 27/10/2026 às 08:39

A disputa pelo comando do governo de Israel ganhou um componente estratégico com as projeções eleitorais que colocam o partido árabe Ra’am em posição relevante para as negociações políticas. Liderada por Mansour Abbas, a legenda pode ajudar a oposição a alcançar a maioria parlamentar necessária para formar um novo governo, embora a aproximação dependa de superar divergências ideológicas e resistências dentro da política israelense.

As eleições estão previstas para 27 de outubro, e as pesquisas indicam que o resultado poderá deixar os principais grupos políticos sem votos suficientes para governar isoladamente. Nesse cenário, o apoio de partidos menores, especialmente daqueles que representam a população árabe, pode influenciar diretamente as negociações para a formação de uma coalizão.

O Ra’am, também conhecido como Lista Árabe Unida, é uma legenda árabe muçulmana que busca ampliar a representação política de sua comunidade e garantir melhores condições de vida para seus integrantes.

Representação árabe tem peso na disputa eleitoral

Os cidadãos árabes representam aproximadamente 21% da população israelense, o equivalente a cerca de dois milhões de pessoas, segundo dados mencionados pelo Conselho de Relações Exteriores, organização norte-americana dedicada à análise de questões internacionais.

Embora a maioria dessa população tenha cidadania israelense, os palestinos que vivem em Jerusalém Oriental possuem, em grande parte, o status de residentes permanentes, condição que não equivale à cidadania plena e limita determinados direitos políticos.

A participação dos partidos árabes no Parlamento, conhecido como Knesset, é uma das principais formas de representação dessa comunidade na política nacional.

Em 2021, o Ra’am entrou para a história ao se tornar o primeiro partido árabe independente a participar de uma coalizão governamental israelense. A legenda apoiou a administração formada por Naftali Bennett e Yair Lapid, que permaneceu no poder entre junho de 2021 e dezembro de 2022.

Naquele período, a sigla demonstrou que a participação em negociações com partidos judaicos poderia abrir espaço para reivindicações relacionadas a investimentos públicos, segurança e serviços destinados às comunidades árabes.

Projeções indicam dificuldades para a oposição

Uma pesquisa divulgada pelo Channel 13 News aponta que o Yashar, partido de Gadi Eisenkot, um dos principais adversários políticos de Benjamin Netanyahu, poderia conquistar até 54 cadeiras no Knesset.

O levantamento também projeta uma redução da representação do Likud, partido do atual primeiro-ministro, de 64 para aproximadamente 50 assentos.

Apesar da vantagem projetada para a oposição, os números indicam que nenhum dos blocos teria, isoladamente, a quantidade de cadeiras necessária para assegurar a maioria parlamentar.

No sistema político israelense, a formação de um governo depende da construção de uma base de apoio suficiente no Parlamento. Por isso, partidos com bancadas menores podem assumir um papel relevante nas negociações posteriores à votação.

A mesma pesquisa atribui ao Ra’am a possibilidade de conquistar cinco cadeiras. Caso a projeção se confirme, a legenda poderá se tornar um interlocutor importante para a oposição, ainda que sua participação formal em um eventual governo permaneça incerta.

Para o professor de Relações Internacionais Danny Zahreddine, da PUC Minas, o partido pode ter influência significativa na definição da próxima administração.

O especialista, contudo, destaca que a aproximação enfrenta obstáculos políticos. Após os ataques do Hamas em outubro de 2023, a possibilidade de estabelecer alianças com partidos árabes passou a enfrentar resistência de setores da sociedade israelense, principalmente entre grupos conservadores e de extrema-direita.

Nesse contexto, o apoio de uma legenda árabe pode ajudar a viabilizar uma maioria parlamentar, mas também expor os demais partidos a críticas de adversários políticos.

Ra’am tenta ampliar sua aceitação política

A estratégia de Mansour Abbas consiste em priorizar a participação institucional e a negociação política como instrumentos para atender às demandas da população árabe.

Embora tenha raízes no movimento islâmico conservador, o Ra’am procura concentrar sua atuação em questões práticas, como a ampliação dos recursos públicos, a melhoria dos serviços oferecidos às comunidades árabes e o enfrentamento dos índices de criminalidade.

A ex-diplomata israelense Revital Poleg avalia que essa postura representa uma tentativa de aproximar o partido das estruturas políticas tradicionais de Israel, reduzindo os obstáculos à negociação com outras legendas.

Uma das iniciativas adotadas nessa direção foi a escolha de Yoav Segalovitz para ocupar a segunda posição na chapa eleitoral do Ra’am.

Policial aposentado, ex-deputado do Knesset e antigo integrante da cúpula da segurança israelense, Segalovitz é judeu sionista e defende a cooperação entre as comunidades judaica e árabe.

Sua presença na chapa procura demonstrar que a legenda pode estabelecer entendimentos políticos sem exigir que seus parceiros compartilhem integralmente de suas convicções religiosas ou ideológicas.

Segundo Poleg, a aproximação tem caráter político e técnico, preservando a autonomia das partes envolvidas. Segalovitz não integra o Movimento Islâmico, e o acordo não pressupõe a fusão das respectivas identidades políticas.

Mesmo com essas iniciativas, o Ra’am continua enfrentando resistência de setores que rejeitam a participação de partidos árabes em coalizões governamentais.

Questão palestina continua sendo um ponto sensível

Outro desafio para a legenda é conciliar suas posições sobre os direitos palestinos com a necessidade de estabelecer alianças dentro do sistema político israelense.

O Ra’am defende a criação de um Estado palestino, a retirada israelense da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e o reconhecimento da Autoridade Palestina como interlocutora oficial nas negociações com Israel.

Entretanto, o tema permanece politicamente delicado, especialmente diante do cenário de segurança posterior aos ataques de outubro de 2023 e da intensificação das divergências entre os diferentes grupos políticos do país.

Por esse motivo, a legenda procura adotar uma abordagem pragmática, priorizando questões nas quais considera possível obter resultados concretos para sua base eleitoral.

A estratégia não significa o abandono de suas posições sobre a questão palestina, mas uma tentativa de equilibrar suas reivindicações com as condições necessárias para participar das negociações políticas nacionais.

Quais são as prioridades do partido?

A professora de Relações Internacionais Karina Calandrin explica que o Ra’am apresenta uma estratégia diferente daquela adotada por outras legendas árabes, ao considerar a participação em coalizões uma ferramenta para conquistar recursos e ampliar direitos.

Entre as principais prioridades do partido estão:

  • Ampliação dos investimentos públicos: busca por mais recursos destinados às localidades e comunidades árabes.
  • Melhoria dos serviços públicos: medidas para ampliar o acesso da população à infraestrutura e aos serviços essenciais.
  • Combate à criminalidade: iniciativas para enfrentar a violência e melhorar a segurança nas comunidades árabes.
  • Participação nas decisões nacionais: negociação com outras forças políticas para influenciar a distribuição de recursos e a formulação de políticas públicas.

Essa orientação foi colocada em prática durante a coalizão formada por Naftali Bennett e Yair Lapid, quando o partido aceitou participar das negociações governamentais para defender suas prioridades.

A legenda também tem demonstrado disposição para reconhecer aspectos centrais da identidade política israelense, numa tentativa de reduzir as barreiras à sua participação institucional.

Em dezembro de 2021, durante uma conferência empresarial organizada pelo veículo Globes, Mansour Abbas afirmou que Israel nasceu como um Estado judeu e que essa identidade deveria ser reconhecida.

A declaração é considerada relevante para compreender a estratégia do dirigente, que procura estabelecer uma distinção entre o reconhecimento do caráter judaico do Estado e a defesa dos direitos civis da população árabe.

Condições de Eisenkot dificultam eventual aliança

Apesar da importância que o Ra’am pode assumir na composição parlamentar, Gadi Eisenkot estabeleceu critérios para a formação de uma possível coalizão.

Entre as condições apresentadas estão:

  • Reconhecimento de Israel como um Estado judeu e democrático;
  • Compromisso com os princípios da Declaração de Independência israelense;
  • Obrigação de cumprir o serviço militar ou civil;
  • Reconhecimento do Hamas como organização terrorista e defesa de sua eliminação.

Segundo Karina Calandrin, Eisenkot já declarou publicamente que não pretende incluir o Ra’am em seu governo nas condições atuais, indicando que a aproximação entre as partes enfrenta limitações concretas.

A posição demonstra que o desempenho eleitoral não será o único fator determinante para a composição da próxima administração. As exigências políticas e ideológicas dos possíveis aliados também terão influência sobre as negociações.

Ainda assim, o apoio parlamentar do Ra’am não depende necessariamente de sua participação formal no gabinete governamental.

O ex-embaixador israelense Ilan Sztulman Starosta considera possível que a legenda negocie apoio a uma eventual administração de Eisenkot sem assumir cargos no governo.

Nesse modelo, o partido poderia oferecer sustentação parlamentar em determinadas votações em troca de compromissos relacionados às suas prioridades, especialmente no combate à criminalidade e na ampliação de investimentos para as comunidades árabes.

Esse tipo de entendimento permitiria que a oposição buscasse os votos necessários para governar, enquanto o Ra’am preservaria sua independência política.

Outros partidos árabes também disputam espaço

Além do Ra’am, outras legendas árabes participam da disputa eleitoral israelense. Entre elas estão o Hadash, o Ta’al e o Balad, que integram a articulação conhecida como Lista Conjunta.

O Hadash é identificado com a Frente Democrática para a Paz e a Igualdade; o Ta’al, com o Movimento Árabe pela Renovação; e o Balad, com a Aliança Nacional Democrática.

O Ra’am participou da formação da Lista Conjunta em 2015, mas deixou a aliança em 2021 para seguir uma estratégia independente, baseada na negociação direta com os partidos que disputam o governo.

A decisão refletiu a intenção de Mansour Abbas de reduzir a influência das divergências ideológicas sobre as negociações políticas e ampliar as possibilidades de obter resultados concretos para a população árabe.

Após a saída do Ra’am, a Lista Conjunta manteve sua presença no Parlamento. Nas eleições de março de 2021, a aliança conquistou seis cadeiras, distribuídas entre o Hadash, com três assentos; o Ta’al, com dois; e o Balad, com um.

Em 2022, a articulação sofreu novas mudanças, quando Hadash e Ta’al decidiram disputar as eleições juntos, sem a participação do Balad. As legendas não integraram o governo formado por Netanyahu naquele ano.

Para as eleições de 2026, os três partidos voltaram a se reunir para disputar o pleito.

Participação no governo ainda é incerta

O analista internacional Lourival Sant’Anna avalia que o Ra’am e a Lista Conjunta podem apoiar a formação de um governo de oposição sem necessariamente participar de sua estrutura administrativa.

A avaliação considera que a contribuição dos partidos árabes para a obtenção de uma maioria parlamentar pode ocorrer por meio de acordos políticos, sem que isso resulte na ocupação de ministérios ou em uma adesão formal à coalizão.

Caso a oposição consiga formar um governo liderado por Eisenkot, o apoio dessas legendas poderá ser discutido durante as negociações posteriores à votação.

Por outro lado, se Netanyahu permanecer no poder, a expectativa apresentada pelo analista é que os partidos árabes continuem fora da composição governamental.

O resultado das eleições e os acordos firmados entre as forças políticas serão determinantes para definir o espaço que essas legendas ocuparão na próxima administração.

Mais do que o número de cadeiras conquistadas, o desafio do Ra’am será transformar sua representação parlamentar em influência política efetiva. A legenda tenta conciliar a defesa dos interesses da população árabe com as exigências de possíveis aliados, em uma disputa na qual a formação de uma maioria poderá depender de negociações complexas.

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