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Juíza cria projeto em Cáceres para prevenir evasão escolar e afastar adolescentes da criminalidade

Iniciativa “Antes da Escolha” será levada a 14 escolas estaduais e busca estimular reflexão, permanência nos estudos e escolhas conscientes entre estudantes

🕒 Publicado em 31/08/2026 às 15:43

A experiência de uma juíza na área criminal revelou um dado preocupante: muitos dos réus que chegavam às audiências haviam interrompido os estudos ainda na adolescência. A constatação levou a magistrada Raíssa da Silva Santos Amaral, titular da 4ª Vara da Comarca de Cáceres, a transformar o conhecimento adquirido no Judiciário em uma iniciativa de prevenção.

Assim nasceu o projeto “Antes da Escolha”, que levará ações educativas, debates e atividades de reflexão a estudantes da rede estadual de ensino de Cáceres, município localizado a cerca de 220 quilômetros de Cuiabá.

Nesta primeira etapa, o projeto será desenvolvido nas 14 escolas estaduais do município, sendo 11 localizadas na área urbana e três na zona rural. O público-alvo são estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, faixa etária considerada estratégica para ações de prevenção.

Dados acenderam o alerta

A ideia surgiu a partir da experiência de Raíssa nas áreas de Infância e Juventude e Criminal. Durante os 18 meses em que atuou na Vara Criminal de Cáceres, a magistrada começou a observar informações relacionadas à escolaridade e ao início do uso de drogas entre pessoas que participavam das audiências.

Segundo o levantamento realizado por ela, aproximadamente 75% dos réus ouvidos em audiências de instrução e julgamento não haviam concluído o Ensino Médio. Nas audiências de custódia, o percentual chegava a 68,4%.

Outro dado chamou a atenção da juíza: 51% haviam interrompido os estudos entre o 7º ano do Ensino Fundamental e o 1º ano do Ensino Médio.

Em diversos casos analisados, o período em que o adolescente abandonava a escola coincidia com a idade em que ocorria o primeiro contato com drogas.

“Percebi que existe um momento crítico e muito vulnerável do adolescente, entre 12 e 16 anos, em que ele pode começar a se afastar da escola, da família e de outros mecanismos de proteção. A partir daí, fica muito mais exposto a influências negativas”, explica Raíssa.

Prevenção antes que o problema aconteça

A preocupação ganha uma dimensão ainda maior em Cáceres, que está localizada em uma região de fronteira. Segundo a magistrada, adolescentes cada vez mais jovens têm sido alvo de organizações criminosas.

“Se o Judiciário conhece muitas dessas histórias depois que os fatos aconteceram, por que não usar essa experiência para tentar atuar antes?”, questiona.

Antes de colocar o projeto em prática, Raíssa visitou as escolas estaduais do município e realizou um diagnóstico sobre os principais desafios enfrentados pelos estudantes.

Foram observadas questões como evasão escolar, dificuldades de aprendizagem, uso de drogas, bullying, indisciplina, vulnerabilidade social e articulação com a rede de proteção.

A partir desse levantamento, o projeto foi estruturado em quatro frentes:

  • palestras educativas e preventivas;
  • mentoria e projetos de extensão com universitários;
  • participação da comunidade;
  • fortalecimento e capacitação da rede de proteção.

Concurso de redação estimula protagonismo

Uma das principais ações será o “Desafio Antes da Escolha”, um concurso de redação que apresentará aos estudantes situações-problema relacionadas a decisões enfrentadas durante a adolescência.

Os alunos deverão se colocar no lugar dos personagens e apresentar soluções para os conflitos propostos.

Além da premiação individual, o projeto prevê uma premiação coletiva, com o objetivo de estimular a frequência e a permanência dos adolescentes na escola.

“A redação foi escolhida porque eu queria que eles também fossem protagonistas. Não apenas ouvissem uma palestra, mas refletissem, se posicionassem e mostrassem como fariam determinada escolha”, explica a juíza.

Escolas relatam desafios semelhantes

A realidade identificada pela magistrada também aparece no cotidiano das escolas participantes.

Na Escola Estadual Onze de Março, maior unidade da rede estadual atendida pela Diretoria Regional de Educação da região, a diretora Aline Silva de Assis relata desafios relacionados à falta de acompanhamento familiar, desmotivação, dificuldades de aprendizagem, problemas emocionais e trabalho informal.

A escola atende 1.167 estudantes, dos quais aproximadamente 40% pertencem a famílias beneficiárias do Bolsa Família.

Segundo Aline, os próprios alunos já demonstram interesse em participar da iniciativa. O Grêmio Estudantil pretende desenvolver uma campanha para estimular a frequência e mobilizar as turmas em torno da premiação coletiva.

“O projeto contribui para fortalecer ações voltadas à permanência na escola, à aprendizagem e à realização de escolhas mais conscientes”, afirma.

Judiciário entra em cena antes da sentença

Na Escola Estadual Professor Demétrio Costa Pereira, o diretor Régis Aparecido de Oliveira destaca a importância de tratar a escola também como um espaço de proteção.

Para ele, muitos adolescentes convivem com situações familiares e sociais que interferem na permanência escolar e na maneira como enxergam o próprio futuro.

“Quando você coloca o problema na mesa, provoca reflexão e também começa a provocar alternativas. O aluno passa a pensar e ganha mais maturidade para fazer escolhas”, avalia.

O diretor também considera simbólica a presença do Judiciário dentro da escola.

“É muito interessante o Judiciário vir para dentro da escola e mostrar ao jovem que existem outros caminhos. Muitas vezes, o Judiciário está no final desse processo, quando chega a sentença. Aqui, ele vem antes”, comenta.

Projeto valoriza a voz dos adolescentes

Na Escola Estadual Cívico-Militar Senador Mário Motta, o diretor Addison Ricardo Fischer Corrêa também chama atenção para os riscos relacionados à perda do vínculo com a escola.

“Quando o estudante deixa de acreditar nas possibilidades para o futuro, ele pode ficar mais exposto a escolhas que tragam consequências negativas. Por isso, é fundamental mostrar que existem diferentes caminhos”, explica.

Para ele, a produção das redações será uma oportunidade para que os próprios estudantes expressem suas opiniões e sejam ouvidos.

“Quando o aluno percebe que pode expressar suas opiniões e que sua voz é valorizada, a discussão acontece de forma mais aberta e consciente”, analisa.

Rede de proteção terá participação

O projeto também prevê parcerias com a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e ações de capacitação para profissionais que integram a rede de proteção.

A proposta é aproximar escola, universidade, Judiciário e outras instituições que trabalham na proteção de crianças e adolescentes.

Para a juíza Raíssa Amaral, a integração é fundamental diante da complexidade dos problemas enfrentados pelos jovens.

“Nenhuma instituição isoladamente consegue enfrentar fenômenos complexos como evasão escolar, drogas, vulnerabilidade social e aproximação com a criminalidade”, afirma.

Segundo ela, o objetivo é criar uma rede capaz de oferecer apoio ao adolescente antes que situações de risco se agravem.

“O futuro ainda não está escrito”

Mais do que alertar sobre os riscos, o “Antes da Escolha” pretende mostrar aos estudantes que eles podem construir caminhos diferentes e que pedir ajuda também faz parte desse processo.

“O lugar onde a história começa não precisa determinar onde ela termina. Se o adolescente entender que permanecer na escola amplia possibilidades, que pedir ajuda também é uma escolha e que o futuro dele ainda não está escrito, o Antes da Escolha já terá cumprido uma parte importante da sua missão”, conclui a magistrada.

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