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Inteligência Artificial reduz tráfego de sites jornalísticos e amplia debate sobre direitos autorais

Resumos produzidos por buscadores podem diminuir os acessos diretos às reportagens e pressionam o modelo de financiamento do jornalismo profissional

🕒 Publicado em 10/08/2026 às 08:17

O crescimento das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) integradas aos mecanismos de busca está provocando mudanças no comportamento dos internautas e criando novos desafios para o jornalismo profissional. Ao receberem respostas e resumos diretamente nas páginas de pesquisa, muitos usuários deixam de acessar os sites responsáveis pela produção original das informações.

O fenômeno ganhou força especialmente a partir de maio de 2024, com a expansão do AI Overviews, do Google, recurso que apresenta respostas geradas por inteligência artificial para determinadas pesquisas.

A redução dos acessos preocupa o setor porque o tráfego dos sites está diretamente relacionado à audiência, à publicidade e, consequentemente, à sustentabilidade financeira das empresas jornalísticas.

Segundo levantamento da Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que reúne 152 veículos de comunicação online no Brasil, um em cada quatro portais associados perdeu mais de 20% da audiência em 2025.

A diretora de Relações Institucionais da entidade, Carla Egydio, considera o cenário preocupante, principalmente para veículos que dependem da publicidade digital e das métricas de audiência para manter suas operações.

Impacto também pode atingir a qualidade da informação

Além da queda no tráfego, especialistas apontam que os resumos produzidos por sistemas de IA podem apresentar outro problema: a perda de contexto.

Uma reportagem jornalística completa envolve informações, dados, entrevistas e diferentes pontos de vista. Quando o usuário recebe apenas um resumo, pode ter acesso a uma versão reduzida do conteúdo, sem necessariamente consultar a publicação original.

A Ajor também alerta para situações em que conteúdos jornalísticos podem ser reproduzidos de maneira literal por ferramentas de inteligência artificial, levantando discussões relacionadas a direitos autorais e possível plágio.

O problema não é exclusivo do Brasil. Em 2025, o veículo norte-americano Business Insider anunciou uma redução significativa de sua equipe em um contexto de queda no tráfego proveniente de mecanismos de busca e mudanças provocadas pela utilização de ferramentas de IA.

Marco regulatório da IA prevê remuneração por conteúdos protegidos

No Brasil, uma das principais discussões ocorre em torno do Projeto de Lei 2338/2023, que trata do Marco Regulatório da Inteligência Artificial.

O texto em tramitação na Câmara dos Deputados prevê mecanismos relacionados à remuneração pelo uso de obras e conteúdos protegidos por direitos autorais, incluindo materiais jornalísticos utilizados por sistemas de inteligência artificial.

A proposta é defendida por entidades do setor de comunicação, que avaliam que a remuneração poderia criar uma nova fonte de sustentabilidade para empresas jornalísticas diante das mudanças provocadas pelas plataformas digitais.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) também defende o avanço da proposta. Para a entidade, o texto representa um passo importante para garantir que o trabalho produzido por jornalistas seja considerado nas discussões sobre utilização de conteúdos por sistemas de IA.

Projeto enfrenta resistência das empresas de tecnologia

As empresas de tecnologia, por outro lado, criticam parte do projeto que trata dos direitos autorais.

Entidades do setor argumentam que as regras podem aumentar os custos para o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial e dificultar a criação de novos modelos no Brasil.

A avaliação apresentada pelas organizações empresariais é de que uma regulamentação excessivamente rígida poderia afetar investimentos e a competitividade brasileira no mercado internacional de IA.

O debate, portanto, envolve interesses distintos: de um lado, veículos de comunicação e profissionais que defendem remuneração pelo conteúdo produzido; de outro, empresas de tecnologia preocupadas com os efeitos das regras sobre pesquisa, desenvolvimento e treinamento de modelos de inteligência artificial.

Discussão ainda não avançou na Câmara

Apesar de o Marco Regulatório da IA ter sido apontado como uma das prioridades do primeiro semestre pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, o projeto não avançou conforme o cronograma inicialmente esperado.

A assessoria do parlamentar informou que aguarda a manifestação do relator da proposta, deputado Aguinaldo Ribeiro.

A comissão especial responsável pela análise do tema não se reúne desde novembro de 2025. A expectativa apresentada pela Câmara é de que a discussão avance após as eleições de outubro.

Um dos pontos que ainda geram questionamentos é justamente a forma como seria calculada e operacionalizada a remuneração pelo uso de conteúdos protegidos por direitos autorais.

Governo defende aprovação da regulamentação

O governo federal também apoia a aprovação do projeto.

O secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, afirmou que a ausência de uma regulamentação específica amplia as disputas envolvendo a utilização de conteúdos protegidos por direitos autorais no treinamento de sistemas de inteligência artificial.

Para o governo, a criação de regras claras pode oferecer maior segurança jurídica para produtores de conteúdo, empresas de tecnologia e usuários.

Cade investiga impactos sobre o mercado de mídia

Enquanto o Congresso debate uma regulamentação específica, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) também passou a analisar os efeitos das ferramentas de inteligência artificial sobre o mercado de comunicação.

Em abril de 2026, o órgão abriu uma investigação envolvendo o Google e os possíveis impactos de suas ferramentas de IA sobre o mercado de mídia.

Entre os pontos analisados está a possibilidade de utilização de conteúdos jornalísticos em ferramentas de inteligência artificial sem remuneração aos veículos responsáveis pela produção das informações.

Veículos negociam diretamente com empresas de IA

Enquanto a discussão legislativa continua, alguns veículos de comunicação já optaram por negociar diretamente com empresas de tecnologia.

A Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, por exemplo, estabeleceram acordos privados envolvendo empresas de inteligência artificial e tecnologia.

No caso da Folha, o acordo com a OpenAI ocorreu após o jornal mover uma ação judicial relacionada ao uso de seus conteúdos jornalísticos.

O cenário mostra que a relação entre jornalismo e inteligência artificial está passando por uma transformação profunda. Ao mesmo tempo em que a tecnologia oferece novas possibilidades para acesso e distribuição de informações, ela também modifica o modelo tradicional de audiência dos sites e abre uma discussão sobre quem deve ser remunerado pela produção e utilização do conteúdo jornalístico.

**Informações via Agência Brasil

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