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Suspeita de fraude em medicamentos expõe pacientes com câncer a esquema investigado pela polícia

Operação apura possível falsificação de remédios, manipulação de licitações e desvio de recursos destinados a tratamentos oncológicos em diferentes estados brasileiros

🕒 Publicado em 21/09/2026 às 09:06

Um esquema investigado por autoridades policiais colocou no centro das apurações pacientes que dependiam de medicamentos para combater o câncer. As investigações apontam para uma possível rede envolvendo empresários, profissionais da saúde, advogados e servidores públicos, com suspeitas que vão desde irregularidades na compra de medicamentos até falsificação e superfaturamento.

As apurações alcançam diferentes estados brasileiros e revelam situações em que recursos públicos destinados ao tratamento de pacientes teriam sido direcionados para empresas ligadas aos investigados. Entre os casos analisados estão ocorrências no Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e Ceará. Segundo as investigações, empresas relacionadas ao esquema movimentaram mais de R$ 70 milhões entre 2021 e 2025.

Operação apreendeu medicamentos com sinais de adulteração

No Rio Grande do Sul, a investigação ganhou força a partir de uma suspeita identificada no setor de oncologia da Santa Casa de Caridade de São Gabriel. Funcionários desconfiaram de um lote de medicamentos e acionaram a polícia.

Em 29 de junho, a Polícia Civil gaúcha realizou uma operação que cumpriu 56 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. A ação fez parte da Operação Placebo, que apura possíveis crimes relacionados à compra e distribuição de medicamentos.

Um dos principais alvos foi o empresário Lisandro Henriques Hermes, que atua na distribuição de medicamentos. Ele acabou preso em flagrante depois que policiais encontraram, em sua residência, diversas caixas de remédios com indícios de adulteração.

O empresário nega participação nas irregularidades. Segundo o delegado Daniel Severo, o investigado afirmou que os medicamentos seriam destinados à destruição. A polícia, porém, apontou que parte do material não apresentava identificação, o que levantou suspeitas sobre a possibilidade de alteração das embalagens.

Durante a análise do lote, foram observados possíveis sinais de falsificação, incluindo problemas de grafia, diferenças de coloração e textura, além de embalagens e bulas apresentando idiomas diferentes. O próprio laboratório responsável pelo medicamento teria analisado uma amostra e informado às autoridades que o produto não era legítimo. Com isso, a distribuição do lote foi interrompida.

Pacientes dependiam de decisões judiciais para obter tratamento

Entre os casos analisados pelas autoridades está o de Maria Jupira, que fazia tratamento contra um câncer no pulmão.

De acordo com os familiares, o medicamento prescrito não estava disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A família então recorreu à Justiça para tentar obter o financiamento do tratamento pelo Estado.

O advogado que conduziu o processo teria sido indicado pelo próprio médico responsável pelo atendimento da paciente. O laboratório fabricante, posteriormente, informou que não reconhecia como legítimo o lote encontrado na Santa Casa.

Após a apreensão do medicamento, segundo os familiares, Maria ficou aproximadamente dois meses sem receber o tratamento adequado. Posteriormente, passou a utilizar outras medicações, mas morreu aos 57 anos.

A família também não conseguiu determinar se ela chegou a receber ou utilizar algum dos medicamentos suspeitos antes de o lote ser identificado pelos funcionários do hospital.

Médico também é citado nas investigações

O médico Fernando Borges da Silva, que atendia Maria, também acompanhava outra paciente, Mara Rodrigues. No caso dela, a doença havia retornado de maneira agressiva após um tratamento anterior.

Segundo o relato da paciente, o médico informou que ela apresentava metástase óssea e recomendou um medicamento importado, alegando preocupação com os resultados de uma opção produzida no Brasil.

Assim como ocorreu no caso de Maria, o profissional teria indicado um advogado para conduzir o processo judicial destinado à obtenção do medicamento.

A Justiça autorizou que o Estado custeasse o tratamento. De acordo com Mara, entretanto, o medicamento não apresentou o resultado esperado. Depois, o médico teria informado que seria necessário solicitar outro tratamento judicialmente.

A paciente afirma que deixou de conseguir contato com o profissional e só voltou a ter uma consulta na Santa Casa de São Gabriel cerca de oito meses depois. No final de agosto, recebeu novos medicamentos para dar continuidade ao tratamento.

Em posicionamento divulgado à época, a Santa Casa informou que afastou o médico depois de tomar conhecimento da investigação. O hospital também afirmou que não é investigado na Operação Placebo e que está colaborando com as autoridades.

Investigação aponta possível direcionamento de licitações

Para a polícia, os casos das duas pacientes fazem parte de uma investigação mais ampla sobre um grupo que teria lucrado com medicamentos e processos judiciais.

Segundo a apuração, o médico identificava pacientes que precisavam de remédios não disponibilizados pelo SUS e realizava as prescrições. Na sequência, os pacientes recorriam à Justiça para conseguir que o poder público arcasse com os custos.

Os investigadores também apontam que os advogados indicados aos pacientes ingressavam com as ações judiciais.

Um dos pontos considerados relevantes pela polícia é a relação entre as farmácias responsáveis pelos orçamentos apresentados nos processos e o empresário Lisandro Hermes. Conforme a investigação, vários estabelecimentos teriam ligação direta ou indireta com ele.

A suspeita é de que essa estrutura teria favorecido empresas ligadas ao grupo nas licitações para fornecimento dos medicamentos.

Investigação chegou ao Paraná

As apurações também alcançaram Cascavel, no Paraná, onde uma farmácia teria vencido uma licitação destinada à compra de medicamentos para Yasmin, uma menina de 12 anos diagnosticada com neuroblastoma, um tipo agressivo de câncer.

De acordo com a investigação, aproximadamente R$ 2,5 milhões repassados pelo governo estadual teriam sido desviados, enquanto apenas parte dos medicamentos previstos teria sido entregue. Yasmin morreu em fevereiro.

A família relatou que depositava esperança no tratamento e descobriu posteriormente que havia suspeitas de irregularidades no fornecimento.

Lisandro Hermes afirma ser inocente. Segundo o material investigado, ele e um sócio foram condenados pela Justiça do Paraná por estelionato.

Advogados são investigados no Rio Grande do Sul

Além do empresário e do médico, a polícia identificou três advogados suspeitos de participação no esquema investigado no Rio Grande do Sul.

A apuração aponta que esses profissionais seriam responsáveis por ingressar com ações judiciais para solicitar recursos públicos destinados à aquisição dos medicamentos.

O caso também levanta preocupação relacionada à segurança dos pacientes, uma vez que medicamentos de procedência desconhecida ou supostamente adulterados podem representar riscos durante tratamentos de alta complexidade.

Segundo a investigação, somente em 2026 foram identificadas suspeitas relacionadas à adulteração de medicamentos em pelo menos quatro estados: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará e Mato Grosso do Sul.

Mato Grosso do Sul identifica receitas suspeitas

No Mato Grosso do Sul, as investigações começaram a partir de outro caso envolvendo um paciente com câncer intestinal.

A Defensoria Pública do estado identificou possíveis irregularidades em pedidos judiciais utilizados para obter medicamentos. Segundo a apuração, documentos relacionados às autorizações judiciais teriam sido aproveitados por pessoas interessadas em obter vantagens indevidas.

O procedimento envolvia a liberação de recursos pelo Estado, seguida do encaminhamento da ordem judicial à Secretaria Estadual de Saúde e, posteriormente, às farmácias que apresentavam propostas para fornecer os medicamentos.

Os investigadores desconfiaram de estabelecimentos que apresentavam valores abaixo dos praticados normalmente no mercado. A apuração indicou que parte dos medicamentos era importada de outros países e não possuía registro no Brasil.

Entre os países apontados na investigação estão Índia, China, Paquistão e Turquia. Segundo a Defensoria, alguns dos produtos não tinham registro sanitário no país e poderiam não corresponder aos medicamentos determinados nas decisões judiciais.

Também foram encontradas receitas médicas consideradas falsas e utilizadas em processos de aquisição de medicamentos no exterior.

No Ceará, uma distribuidora que havia fornecido medicamentos para um paciente identificado como Luiz Carlos foi fechada pela polícia no ano anterior, sob suspeita de falsificação. O paciente morreu em maio deste ano.

Servidores são investigados por possível superfaturamento

Outra frente da investigação no Mato Grosso do Sul envolve dois funcionários da Secretaria Estadual de Saúde.

Segundo as autoridades, eles teriam repassado pedidos de compra de medicamentos para determinadas farmácias. A suspeita é de que os envolvidos, juntamente com proprietários dos estabelecimentos, tenham obtido vantagens por meio do superfaturamento.

Em um dos exemplos apresentados na investigação, um medicamento cujo tratamento de três meses teria sido registrado no processo por cerca de R$ 100 mil custaria, na realidade, aproximadamente R$ 1,2 mil a R$ 1,6 mil, conforme o caso citado pela Defensoria.

De acordo com dados da Receita Federal mencionados na investigação, as empresas relacionadas ao esquema movimentaram mais de R$ 70 milhões em faturamento entre 2021 e 2025.

Os dois servidores da Secretaria de Saúde foram afastados, enquanto as autoridades continuam investigando o caso.

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