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NOTÍCIAQueda na vacinação faz sarampo avançar nos Estados Unidos e acende alerta

Queda na vacinação faz sarampo avançar nos Estados Unidos e acende alerta

País registra mais de 3,6 mil casos em 2026 e confirma quinta morte; especialistas apontam redução da cobertura vacinal como um dos principais fatores para o avanço da doença

🕒 Publicado em 01/10/2026 às 08:20

Os Estados Unidos enfrentam um novo cenário de preocupação com uma doença que havia sido oficialmente eliminada do país há mais de duas décadas. O número de casos de sarampo já ultrapassou 3,6 mil em 2026, enquanto uma quinta morte foi confirmada pelas autoridades.

A pessoa que morreu não estava imunizada, assim como as quatro vítimas registradas anteriormente. Entre as mortes contabilizadas ao longo do ano estão dois bebês e dois adultos. As informações sobre a identidade e a idade da quinta vítima ainda não foram divulgadas.

O atual cenário é considerado o pior surto de sarampo registrado nos Estados Unidos desde a eliminação oficial da doença, em 2000. O número de casos neste ano também já supera em 59% o total registrado durante todo o ano passado.

Cobertura vacinal abaixo do nível necessário

Especialistas apontam que o avanço atual não pode ser explicado apenas pelo surto de 2026. A cobertura de vacinação contra o sarampo vem apresentando redução há vários anos, aumentando gradualmente o número de pessoas suscetíveis à infecção.

Para dificultar a circulação do vírus, considerado altamente transmissível, a cobertura vacinal precisa permanecer acima de 95%. Esse índice está relacionado à chamada imunidade coletiva, que reduz as possibilidades de o vírus encontrar pessoas não protegidas e continuar se espalhando.

Os dados analisados a partir de informações do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) mostram uma mudança significativa nesse cenário. Em 2011, 21 estados americanos estavam acima da marca de 95% entre a população infantil avaliada. Atualmente, esse número caiu para apenas 10 estados.

A redução ganhou força especialmente durante o período da pandemia de Covid-19. Entre 2020 e 2021, o número de estados que apresentavam cobertura superior a 95% caiu de 20 para 16. Desde então, os índices não conseguiram recuperar os níveis anteriores.

Milhões de crianças podem estar desprotegidas

A dimensão do problema também aparece quando os números são analisados em escala nacional.

Segundo os dados apresentados na reportagem, cerca de 3,7 milhões de crianças tiveram seus registros de vacinação avaliados ao ingressarem na pré-escola neste ano. A cobertura média ficou em 92,5%, o que representa aproximadamente 284 mil crianças sem as duas doses necessárias da vacina tríplice viral.

Mantida uma média semelhante ao longo dos anos, a estimativa chega a pelo menos 1,7 milhão de crianças sem a imunização completa contra o sarampo nos últimos seis anos.

Para a pediatra Flavia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, mesmo uma diferença aparentemente pequena na cobertura pode representar um número elevado de pessoas vulneráveis quando aplicada à população de um país inteiro.

Bolsões de baixa vacinação preocupam especialistas

Outro ponto destacado pelos especialistas é que os números estaduais podem esconder diferenças importantes dentro de cada região.

A cobertura não é uniforme entre os municípios e condados. Assim, um estado pode apresentar uma taxa geral relativamente elevada e, ao mesmo tempo, possuir comunidades onde a vacinação está muito abaixo do necessário para impedir a transmissão.

Mapas elaborados com dados por condado identificam áreas com baixos índices de imunização inclusive em estados que apresentam números gerais mais altos, como Califórnia e Novo México.

Na Pensilvânia, por exemplo, a cobertura informada é de 92,7%. Mesmo assim, o estado concentra mais de 700 casos e cinco mortes, incluindo dois bebês, de acordo com os dados apresentados na reportagem.

Movimento antivacinação entra no debate

Os especialistas ouvidos pela reportagem também relacionam a queda na vacinação ao crescimento de movimentos contrários aos imunizantes.

O infectologista Peter Hotez, da National School of Tropical Medicine, do Baylor College of Medicine, afirma que comunidades inteiras apresentam resistência à vacinação e que isso amplia o número de pessoas suscetíveis ao vírus.

Outro fator apontado é o modelo de acesso à saúde nos Estados Unidos. A vacina tríplice viral não é disponibilizada gratuitamente para toda a população, ficando o acesso condicionado, em diferentes situações, à existência de seguro de saúde ou cobertura pelo Medicaid.

Alegação sobre autismo não tem respaldo científico

A relação entre a vacina tríplice viral e o autismo voltou a aparecer no debate público americano. Segundo a reportagem, o presidente Donald Trump e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., fizeram declarações relacionando o imunizante à condição.

A alegação, porém, não possui respaldo nas evidências científicas disponíveis. A origem da hipótese está associada a um estudo publicado em 1998 pelo médico britânico Andrew Wakefield, posteriormente considerado fraudulento.

A publicação foi retratada pela revista científica, os demais autores retiraram seus nomes do trabalho e Wakefield perdeu a licença médica. Pesquisas posteriores realizadas em diferentes países, envolvendo milhões de crianças, não identificaram relação causal entre a vacinação e o autismo.

Por que a cobertura de 95% é importante?

A vacina utilizada para prevenir o sarampo nos Estados Unidos é a MMR, conhecida no Brasil como tríplice viral, que também protege contra caxumba e rubéola.

A recomendação apresentada na reportagem prevê duas doses, sendo a primeira a partir de 1 ano de idade e a segunda até os 6 anos.

Quando a cobertura cai, aumenta a quantidade de pessoas suscetíveis e, diante da entrada de um caso importado, o vírus encontra condições mais favoráveis para circular.

O atual surto mostra justamente como a redução gradual da imunização pode criar grupos vulneráveis ao longo dos anos. Para os especialistas citados, recuperar a cobertura vacinal é fundamental para reduzir o risco de novos surtos e evitar o retorno de um cenário semelhante ao período anterior à vacinação em larga escala.

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