O governo brasileiro avalia que a pressão dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral de 2026 pode aumentar até o segundo turno. Segundo análise divulgada pela CNN Brasil, autoridades brasileiras acompanham quatro possíveis frentes de atuação: manifestações políticas de Donald Trump e do secretário de Estado americano, Marco Rubio; movimentação de perfis nas redes sociais; suspeitas de financiamento estrangeiro; e contatos de autoridades americanas com influenciadores brasileiros.
A avaliação ocorre em meio ao aumento das tensões entre Brasília e Washington e à aproximação pública do governo Trump com setores da direita brasileira. O tema também ganhou destaque depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em discurso na Assembleia Geral da ONU, que não aceita interferência externa nas eleições brasileiras.
Pressão política de Trump e Rubio
Uma das possibilidades acompanhadas pelo governo é a manifestação direta de autoridades americanas em favor de determinados candidatos brasileiros.
A análise divulgada pela CNN cita como referência episódios recentes em outros países latino-americanos, nos quais Trump declarou apoio público a candidatos de direita. O governo brasileiro avalia que uma estratégia semelhante poderia ser utilizada durante a eleição brasileira.
Até o momento, porém, é necessário diferenciar manifestações públicas de apoio político de uma operação formal de interferência eleitoral. A existência de declarações favoráveis a determinado candidato, por si só, não comprova uma ação coordenada para alterar o resultado de uma eleição.
Redes sociais
Outra frente monitorada envolve a possibilidade de impulsionamento de conteúdos políticos a partir do exterior.
Segundo a apuração da CNN, setores do governo e campanhas adversárias de Flávio Bolsonaro levantaram suspeitas sobre uma eventual operação de divulgação paga de conteúdos favoráveis ao candidato. A campanha de Flávio nega que esteja recebendo impulsionamento estrangeiro.
O assunto ganhou dimensão institucional depois que o Tribunal Superior Eleitoral abriu investigação sobre uma rede de publicações no Instagram associada a conteúdos eleitorais ligados a Flávio Bolsonaro. Segundo a Folha, o TSE determinou a preservação e o fornecimento de dados de contas envolvidas para apurar possível uso irregular da ferramenta de colaboração da plataforma.
A investigação eleitoral, contudo, não estabelece que os recursos ou a operação tenham origem nos Estados Unidos.
Suspeita de financiamento estrangeiro
Também está sob discussão uma denúncia relacionada ao fundo de investimentos RockBridge Network. A suspeita foi levantada publicamente pelo candidato Renan Santos e posteriormente levada ao Supremo Tribunal Federal pelo PT.
A acusação sustenta que o fundo teria relação com o financiamento da candidatura de Flávio Bolsonaro. A legislação brasileira proíbe doações de origem estrangeira para campanhas eleitorais.
Até o momento, a acusação deve ser tratada como uma suspeita submetida às autoridades, e não como fato comprovado. A campanha de Flávio Bolsonaro também nega irregularidades relacionadas a financiamento ou impulsionamento estrangeiro.
Contatos com influenciadores
A quarta frente envolve encontros de autoridades americanas com influenciadores brasileiros ligados à direita.
Segundo a avaliação apresentada pelo governo, essas reuniões poderiam representar uma tentativa de apresentar posições de Washington sobre questões relacionadas ao ambiente digital, liberdade de expressão e política brasileira.
O tema oficial dos encontros, entretanto, não significa automaticamente que tenha ocorrido uma ação de interferência eleitoral. Para estabelecer essa relação seria necessária comprovação de finalidade, coordenação e atuação destinada especificamente a influenciar o processo eleitoral.
Relatório da Abin
A discussão ganhou peso após um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), enviado no fim de agosto à Presidência da República, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral.
Segundo informações divulgadas pela Folha e confirmadas por outros veículos, o documento classificou como “nível de criticidade” o risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. A Abin apontou ainda uma tendência de aumento da pressão americana sobre o Brasil.
O relatório relaciona essa pressão à estratégia americana de reduzir a influência de potências rivais na América Latina, especialmente em áreas consideradas estratégicas, como recursos naturais, infraestrutura e ativos econômicos.
A avaliação da inteligência brasileira também considera a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Nesse contexto, o Brasil é visto como um país relevante por sua dimensão econômica, disponibilidade de recursos naturais e relação comercial com Pequim.
Lula fala em soberania eleitoral
O tema foi levado pelo presidente Lula à Assembleia Geral das Nações Unidas. Em seu discurso, nesta terça-feira (22), ele alertou contra interferências externas nos processos eleitorais e defendeu a soberania brasileira.
Sem citar diretamente Trump em todos os momentos, Lula criticou ações externas que, segundo ele, poderiam interferir na política brasileira e afirmou que o país deve conduzir internamente suas decisões sobre segurança e organização eleitoral.
O governo americano, por sua vez, não apresentou publicamente evidências de uma operação destinada a interferir diretamente na votação brasileira.
Assim, o cenário atualmente reúne ações e declarações públicas já documentadas, avaliações de órgãos brasileiros de inteligência e suspeitas que ainda dependem de investigação. A eventual existência de uma operação coordenada de interferência estrangeira nas eleições dependerá da comprovação dos fatos pelas autoridades competentes.




