A presença militar dos Estados Unidos no Iraque chegou ao fim nesta quarta-feira (30), após mais de duas décadas de operações no país. A retirada das últimas tropas e equipamentos americanos foi concluída na região do Curdistão iraquiano, encerrando a participação dos EUA na Operação Inherent Resolve, missão criada para combater o Estado Islâmico (EI).
O encerramento representa uma mudança importante na relação entre Washington e Bagdá. A partir de agora, a cooperação entre os dois países passa a ter como base uma relação bilateral de defesa, enquanto a responsabilidade pela segurança interna fica cada vez mais concentrada nas forças iraquianas.
A saída, entretanto, não significa o desaparecimento da influência americana no Iraque. Os Estados Unidos mantêm uma forte presença diplomática e continuam tendo relações econômicas, políticas e de segurança com o país.
Uma presença que começou em 2003
A história militar americana no Iraque teve início com a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, que derrubou o regime de Saddam Hussein.
Após anos de ocupação, conflitos internos e violência sectária, as tropas americanas deixaram o país em 2011. Três anos depois, porém, retornaram a pedido do governo iraquiano diante do avanço do Estado Islâmico, que havia conquistado grandes áreas do território.
A missão posterior teve características diferentes da ocupação inicial. Com o passar dos anos, o papel dos militares americanos passou a envolver principalmente treinamento, aconselhamento, inteligência e apoio às forças locais.
Em seu momento mais intenso, em 2007, mais de 170 mil militares americanos estavam mobilizados no Iraque. O contingente foi reduzido progressivamente até chegar a apenas algumas centenas nos últimos estágios da retirada.
A luta contra o Estado Islâmico
A operação internacional contra o Estado Islâmico foi estabelecida em 2014, após a expansão do grupo extremista no Iraque e na Síria.
O grupo perdeu o controle territorial que mantinha no Iraque e, em 2017, Bagdá anunciou a derrota territorial do EI no país. Desde então, a atuação da coalizão passou a ser cada vez mais voltada para capacitação e apoio às forças iraquianas.
O Comando Central dos Estados Unidos afirmou que a retirada de Erbil representa o encerramento da missão militar americana no Iraque e a transição para uma relação bilateral de defesa. A estrutura da coalizão continuará operando a partir da Jordânia para apoiar ações contra remanescentes do Estado Islâmico na Síria.
Por que a retirada acontece agora?
O encerramento foi previsto em um acordo firmado entre Washington e Bagdá em 2024, que estabeleceu a conclusão da missão militar da coalizão no Iraque.
O calendário foi mantido mesmo diante das tensões que aumentaram na região. Ao longo dos últimos meses, instalações e interesses americanos no Iraque foram alvo de ataques, principalmente em meio ao conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
A região do Curdistão iraquiano, onde permaneceram os últimos militares americanos, também registrou ataques com drones e mísseis atribuídos a grupos alinhados ao Irã.
O papel do Irã
A retirada americana ocorre em um cenário no qual o Irã mantém forte influência política e militar dentro do Iraque, principalmente por meio de grupos armados aliados de Teerã.
A saída dos militares americanos pode alterar o equilíbrio entre diferentes forças políticas e de segurança dentro do país. Analistas ouvidos pela Reuters apontaram que grupos apoiados pelo Irã podem ampliar sua influência, enquanto também existem preocupações sobre uma possível reorganização de células do Estado Islâmico.
Ao mesmo tempo, o governo iraquiano tenta ampliar o controle estatal sobre grupos armados. O primeiro-ministro Ali al-Zaidi adiou para junho de 2027 o prazo inicialmente previsto para colocar todos os armamentos sob controle do Estado.
Iraque assume maior responsabilidade pela segurança
Com a saída das tropas estrangeiras, as forças de segurança iraquianas passam a assumir uma responsabilidade ainda maior pela proteção do território.
O país conta atualmente com Exército, polícia, forças de contraterrorismo e unidades vinculadas às Forças de Mobilização Popular (PMF).
Especialistas destacam que as forças iraquianas acumularam experiência significativa durante os anos de combate ao Estado Islâmico. Ao mesmo tempo, permanecem desafios, especialmente nas áreas de defesa aérea, controle de grupos armados e combate a células extremistas.
Uma nova relação entre Washington e Bagdá
A retirada militar não representa necessariamente o fim da cooperação entre os dois países.
A tendência apontada por especialistas é de uma relação menos concentrada na presença de soldados e mais direcionada para inteligência, treinamento, cooperação técnica, segurança e relações econômicas.
Os Estados Unidos também continuam com uma grande estrutura diplomática no Iraque, incluindo a embaixada em Bagdá e o consulado em Erbil.
Além da segurança, o petróleo representa outro elemento importante nessa relação. A economia iraquiana depende fortemente das receitas provenientes do setor petrolífero, enquanto Washington mantém mecanismos de influência sobre o fluxo financeiro e o acesso do país ao dólar.
O que muda a partir de agora?
A conclusão da retirada encerra um dos capítulos mais longos da atuação militar americana no Oriente Médio. O Iraque passa a enfrentar uma nova etapa, na qual terá de equilibrar sua relação com os Estados Unidos, a influência iraniana e as próprias forças políticas e militares internas.
O governo de Bagdá apresenta a retirada como uma afirmação de soberania nacional, enquanto autoridades e analistas também discutem os riscos relacionados à segurança e ao futuro das milícias.
Para os Estados Unidos, a mudança representa a passagem de uma presença militar direta para um modelo de cooperação bilateral. A missão contra o Estado Islâmico continua na Síria, mas sem a manutenção do mesmo contingente militar dentro do território iraquiano.




