O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, vem adotando uma postura mais descontraída e, ao mesmo tempo, mais incisiva nas relações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A mudança ocorre após meses de tensão comercial entre os dois países e em meio à aproximação do Canadá com a União Europeia.
Um dos episódios que simbolizaram essa mudança aconteceu na última sexta-feira, durante um discurso para integrantes do Partido Liberal, em Ottawa. Ao mencionar um grande projeto de energia limpa, Carney comparou a capacidade da iniciativa ao equivalente a 18 represas Hoover e reproduziu com as mãos um gesto frequentemente utilizado por Trump.
A atitude provocou risos entre os presentes e rapidamente ganhou repercussão. A cena foi registrada pela imprensa americana e interpretada como uma provocação bem-humorada ao presidente dos Estados Unidos.
De cautela a respostas mais diretas
Quando assumiu o cargo em 2025, Carney buscava reduzir as tensões com Washington. Em um encontro com Trump na Casa Branca, chegou a responder de maneira descontraída à declaração do presidente americano sobre transformar o Canadá no 51º estado dos EUA.
Desde então, porém, a relação comercial entre os dois países se deteriorou. As negociações para reduzir as disputas tarifárias chegaram a um impasse, enquanto Ottawa adotou medidas de retaliação contra produtos americanos.
Em agosto, Carney afirmou que as condições apresentadas pelos Estados Unidos nas negociações eram consideradas desfavoráveis ao Canadá. O governo canadense anunciou posteriormente medidas tarifárias de resposta.
Nos últimos meses, o primeiro-ministro também passou a responder de maneira mais direta a declarações de integrantes do governo Trump. Em uma ocasião, após críticas feitas pelo secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, Carney pediu que o governo dos EUA parasse com provocações e memes.
Aproximação com a União Europeia
Paralelamente ao desgaste com Washington, o Canadá vem ampliando seus esforços para estreitar relações com a União Europeia.
Durante discurso no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, Carney defendeu uma parceria estratégica mais profunda entre Canadá e Europa. A proposta inclui cooperação em setores como energia, defesa, minerais críticos, inteligência artificial e comércio digital.
A aproximação ganhou força depois que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs que o Canadá pudesse se tornar o primeiro “membro associado” do bloco em uma iniciativa de cooperação ampliada.
Trump reagiu negativamente à possibilidade e ameaçou adotar novas medidas comerciais caso considerasse a aproximação entre Canadá e União Europeia uma ação hostil.
Carney, por sua vez, afirmou que o objetivo não seria criar um bloco rival aos Estados Unidos, mas aumentar a capacidade de o Canadá proteger seus próprios interesses e ampliar suas parcerias internacionais.
Relação com os Estados Unidos entra em nova fase
A mudança de tom ocorre em um cenário de crescente diversificação das relações externas do Canadá. Além da aproximação com a União Europeia, o governo canadense também anunciou medidas para ampliar a cooperação em defesa com países europeus.
Analistas ouvidos pela imprensa americana avaliam que a estratégia representa uma mudança em relação à postura inicialmente mais conciliadora de Carney. Para esses especialistas, as provocações públicas podem aumentar a tensão com Trump, mas também fazem parte de uma estratégia canadense de demonstrar independência nas negociações.
Apesar das críticas e das disputas comerciais, os dois países continuam profundamente ligados economicamente. A relação entre Canadá e Estados Unidos permanece, portanto, marcada simultaneamente pela interdependência comercial e por divergências políticas e estratégicas.
O episódio das “18 represas Hoover” tornou-se um dos exemplos mais recentes dessa nova fase: uma relação em que Carney mantém a defesa dos interesses canadenses, mas demonstra cada vez menos disposição para evitar respostas públicas às provocações de Trump.




