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Dores menstruais afastam quase 40% das estudantes das salas de aula no Brasil

Pesquisa aponta impacto das cólicas na aprendizagem e revela desigualdade racial entre alunas

🕒 Publicado em 28/05/2026 às 10:26

As dores provocadas pelo período menstrual têm impactado diretamente a rotina escolar de milhões de estudantes brasileiras. Uma pesquisa divulgada nesta semana mostra que cerca de quatro em cada dez alunas faltam às aulas mensalmente devido aos sintomas relacionados à menstruação, principalmente as cólicas intensas.

O levantamento foi realizado pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info e ouviu estudantes, professores e gestores das redes pública e privada de ensino em todas as regiões do país. O estudo foi divulgado em referência ao Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado em 28 de maio.

Entre as estudantes que menstruam, seis em cada dez relataram sofrer com cólicas moderadas ou fortes a ponto de comprometer a rotina escolar e exigir uso frequente de medicamentos.

A pesquisa aponta que a cólica é o principal motivo das ausências nas escolas, sendo mencionada por mais da metade das entrevistadas. Outros sintomas recorrentes incluem cansaço, dores no corpo, dores de cabeça, desconforto abdominal, medo de vazamentos e falta de acesso a itens de higiene menstrual.

Segundo o estudo, os sintomas menstruais podem resultar em até dois dias de faltas por mês, cenário que preocupa especialistas por comprometer o desempenho acadêmico e o vínculo das estudantes com o ambiente escolar.

A líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, Sofia Reinach, alerta que o problema ainda é tratado de forma individualizada e pouco debatida nas instituições de ensino.

De acordo com ela, a ausência frequente causada pela dor pode gerar impactos duradouros na aprendizagem e aumentar desigualdades educacionais ao longo da vida escolar.

Desigualdade racial

O levantamento também revelou diferenças significativas entre estudantes negras e brancas. Apesar de relatarem menos dores intensas, as alunas negras apresentam índices maiores de faltas escolares relacionadas ao período menstrual.

Os dados mostram que estudantes negras chegam a perder até 1,5 vez mais dias de aula por mês em comparação às estudantes brancas. Especialistas avaliam que isso pode estar ligado à normalização cultural da dor entre meninas negras, que muitas vezes deixam de reconhecer os sintomas como incapacitantes.

Para Sofia Reinach, ainda existe um entendimento equivocado de que pessoas negras suportam mais dor, percepção que pode dificultar o acolhimento adequado e o acesso ao tratamento.

Ela defende maior atenção de profissionais da educação e da saúde para identificar sinais de sofrimento menstrual e garantir acompanhamento adequado às estudantes.

Falta de estrutura agrava situação

A pesquisa também identificou desigualdades regionais relacionadas à infraestrutura escolar. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, a ausência de banheiros adequados e de produtos de higiene menstrual aparece entre os principais fatores que contribuem para faltas nas aulas.

O estudo reforça que acesso à higiene menstrual é uma condição básica para permanência escolar e dignidade das estudantes.

Em Brasília, a estudante Ana Clara Maimoni criou uma campanha solidária para arrecadar absorventes destinados a alunas em situação de vulnerabilidade. A ação conseguiu reunir cerca de mil unidades, distribuídas em uma escola pública da capital federal.

Além da arrecadação, o projeto promoveu palestras educativas sobre saúde menstrual, incentivando o debate e reduzindo o tabu em torno do tema entre adolescentes.

Para Ana Clara, discutir dignidade menstrual dentro das escolas é essencial para combater desigualdades e garantir que meninas não sejam privadas da educação por falta de acesso ao básico.

Menstruação precoce aumenta casos de cólicas intensas entre estudantes, aponta pesquisa

A pesquisa também revelou que a primeira menstruação tem ocorrido cada vez mais cedo entre meninas brasileiras. Segundo o levantamento, 65,2% das estudantes entrevistadas menstruaram até os 11 anos de idade, enquanto 36,5% tiveram a menarca antes dos 10 anos.

Os índices variam entre as regiões do país. O Nordeste apresentou a maior proporção de menarca precoce, com 45,5%, seguido da região Sul, com 43,9%. Já o Centro-Oeste registrou o menor percentual, de 16,1%.

O estudo ainda identificou diferenças raciais importantes. Na região Sul, 64% das estudantes negras tiveram menarca precoce, contra 32,9% das brancas. No Sudeste, os números chegam a 61,6% entre meninas negras e 5,3% entre meninas brancas.

Os dados também apontam relação direta entre menstruação precoce e dores mais intensas. Entre as estudantes que menstruaram aos 10 anos, 43% relataram cólicas fortes. O percentual diminui entre adolescentes cuja primeira menstruação ocorreu mais tarde.

De acordo com o Instituto Alana, menstruar precocemente pode impactar não apenas a saúde física, mas também a frequência escolar, a concentração nas aulas, a prática esportiva e a convivência social.

Falta de orientação preocupa especialistas

A pesquisa mostra que muitas adolescentes chegam à primeira menstruação sem qualquer informação sobre o ciclo menstrual e seus efeitos no corpo. Diante disso, especialistas defendem que a educação menstrual seja iniciada ainda nos primeiros anos do ensino fundamental.

Para Sofia Reinach, líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, é necessário ampliar o acolhimento às meninas que apresentam dores intensas desde cedo, garantindo acompanhamento adequado.

Escolas também enfrentam faltas de professoras

Além do impacto sobre as estudantes, o estudo mostra que a dor menstrual também afeta profissionais da educação. Entre as gestoras escolares entrevistadas, 28,3% afirmaram sofrer com cólicas fortes e 16,9% já precisaram faltar ao trabalho devido aos sintomas menstruais.

Entre as professoras, 15,8% relataram dores intensas e 12,1% disseram ter se ausentado do trabalho ao menos uma vez no último ano por questões relacionadas à menstruação.

Segundo o levantamento, o menor índice de faltas entre profissionais pode estar relacionado ao maior acesso a diagnósticos e tratamentos, além das responsabilidades da vida adulta, que levam muitas mulheres a continuar trabalhando mesmo com dor.

Meninos ainda desconhecem impactos da menstruação

O estudo também revela que o tema ainda é pouco debatido entre os estudantes do sexo masculino. Mais de um terço dos meninos afirmou não refletir sobre menstruação no ambiente escolar.

Quando questionados sobre os impactos do ciclo menstrual na rotina escolar, apenas 23,7% dos meninos acreditam que a menstruação pode prejudicar o desempenho nas aulas ou em atividades esportivas. Entre as meninas, esse percentual sobe para 41,2%.

Especialistas defendem que os meninos também participem das discussões sobre saúde menstrual para reduzir preconceitos, constrangimentos e fortalecer redes de apoio dentro das escolas.

Naturalização da dor pode atrasar diagnósticos

A pesquisa alerta que tratar cólicas intensas como algo “normal” pode trazer consequências sérias para a saúde das mulheres ao longo da vida. A invisibilidade da dor pode dificultar diagnósticos precoces de doenças ginecológicas, como a endometriose.

Segundo o Instituto Alana, muitas adolescentes aprendem desde cedo a conviver com dores incapacitantes sem buscar atendimento médico adequado. Isso faz com que doenças importantes sejam identificadas apenas na fase adulta.

A endometriose, por exemplo, afeta uma em cada dez mulheres e pode levar até 12 anos para ser diagnosticada.

O estudo conclui que investir em saúde menstrual nas escolas é fundamental para garantir aprendizagem, permanência escolar e redução das desigualdades sociais e educacionais entre meninas e mulheres.

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