Da Redação / acaradopovo.com.br
Parte fundamental da história da medicina brasileira, as Santas Casas de Misericórdia têm raízes profundas no país como instituições filantrópicas. Criadas como irmandades religiosas, tinham como missão oferecer cuidado e sustento aos doentes, ampliando o acesso da população a serviços de saúde e assistência. Em Cuiabá, a Santa Casa é um exemplo vivo — e hoje ameaçado — dessa tradição.
Fundada em 8 de dezembro de 1817, a Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá é o hospital mais antigo da capital mato-grossense. Sua história se entrelaça com a própria trajetória da cidade, que completa 306 anos em 2025. Com mais de dois séculos de existência, o prédio — em estilo gótico alemão e tombado pela Secretaria de Cultura de Mato Grosso — tem como padroeira Nossa Senhora da Conceição.
Segundo o historiador Fernando Tadeu de Miranda Borges, doutor em História Social pela USP e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, a Santa Casa nasceu de um antigo anseio da população cuiabana. A ideia de um hospital data da década de 1740, quando já se notava a dificuldade em manter médicos e cirurgiões na região. A concretização veio a partir de um gesto de filantropia.
“Um cidadão português de posses, Manoel Fernandes Guimarães, deixou em testamento parte de sua fortuna para a construção de um hospital em Vila Bela da Santíssima Trindade e Cuiabá”, explica o professor. A verba permaneceu guardada até 1815, quando o então governador da Capitania de Mato Grosso, João Carlos Augusto D’Oeynhausen Gravenberg, iniciou a construção do hospital.
O nome inicial foi Hospital Nossa Senhora da Conceição, mudando depois para Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá. Em 1818, um ano após sua inauguração, Cuiabá foi elevada à condição de cidade, impulsionando a transferência da capital de Vila Bela para Cuiabá, oficializada em 1835.
Durante grande parte de sua história, a Santa Casa foi o único hospital da cidade. Em 1919, no bicentenário de Cuiabá, o então arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa trouxe três irmãs salesianas para ajudar na administração. Dentre elas, destacam-se nomes como Irmã Assunta Caberlon, Irmã Ana Malpici, Irmã Rosita de Oliveira Lima, entre outras.
Ao longo dos séculos, a Santa Casa enfrentou epidemias como a cólera, diversas doenças tropicais e, mais recentemente, a covid-19, prestando serviços essenciais à população cuiabana e mato-grossense. No entanto, a história da instituição também é marcada por dificuldades financeiras.
Em 2019, a Santa Casa fechou as portas com uma dívida superior a R$ 100 milhões. Após dois meses sem atendimento, foi estadualizada — tornando-se o primeiro hospital administrado diretamente pelo Governo do Estado em Cuiabá. Desde então, o prédio é alugado pelo Estado por cerca de R$ 400 mil mensais, mas antigos funcionários ainda aguardam pagamentos de salários atrasados.
Com a inauguração do novo Hospital Central, o Governo de Mato Grosso sinalizou que deixará a gestão da Santa Casa, reacendendo o temor de um novo fechamento. O futuro da unidade passou a ser discutido em audiência pública na Assembleia Legislativa, com parlamentares, representantes da saúde e sindicatos se posicionando contra a possível desativação.
O historiador Fernando Tadeu faz um apelo emocionado:
“Que a força de Gravenberg inspire os governantes atuais a manter esse espaço como um local de saúde para os mato-grossenses. Trata-se do nosso maior bem público e tem muita história ainda para ser registrada.”
A possível saída do Estado da gestão gera incertezas, e parlamentares articulam uma solução em parceria com o prefeito Abilio Brunini (PL). A população e os profissionais da saúde acompanham com atenção os desdobramentos.
“Leito fechado significa leito não reaberto”, lembra o historiador — uma máxima que ecoa como alerta e apelo pela preservação da memória e da saúde pública em Mato Grosso.




