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NOTÍCIAFacções dominam metade do sistema prisional em MT e especialistas apontam saídas

Facções dominam metade do sistema prisional em MT e especialistas apontam saídas

Cerca de 54% dos presos em Mato Grosso têm ligação com organizações criminosas. Professores, juízes e promotores defendem medidas urgentes para conter a atuação das lideranças de dentro das cadeias.

🕒 Publicado em 14/07/2025 às 07:18

Mais da metade da população carcerária de Mato Grosso está diretamente associada a facções criminosas ou atua sob influência delas. A estimativa é da professora Vladia Soares, especialista em Direito Penal e Criminologia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Dos mais de 14 mil detentos no estado, cerca de 7.400 têm algum vínculo com essas organizações, o que representa aproximadamente 54% do total.

Considerando dados do Judiciário, o número de pessoas conectadas às facções dentro e fora das prisões ultrapassa os 30 mil. Esse universo abrange desde os encarcerados por participação ativa, até familiares e colaboradores externos que atuam em apoio logístico ou financeiro.

Para reverter esse cenário, Vladia defende ações estruturais: o rompimento do comando das lideranças dentro das penitenciárias e a criação de condições que inibam o recrutamento de novos membros. Uma das propostas é a separação criteriosa entre presos faccionados e não faccionados, com a criação de alas específicas que ofereçam proteção e oportunidades de ressocialização para quem deseja se manter afastado dessas organizações.

Além disso, ela propõe a criação de programas de desligamento e delação que ofereçam proteção legal e física a quem quiser sair das facções. Sem esse tipo de apoio, destaca a professora, muitos presos acabam sendo alvos dentro do sistema.

Outro ponto crítico é o controle da comunicação nas penitenciárias. Vladia reforça a importância da instalação de bloqueadores de sinal de celular com manutenção constante, além do uso de tecnologias como body scanners e revistas eletrônicas, para impedir a entrada de celulares e outros meios de comunicação clandestinos.

Lideranças comandam de dentro das celas

O juiz Geraldo Fidelis, da Vara de Execuções Penais, confirma que o comando das principais facções atuantes em Mato Grosso parte de dentro dos presídios. Segundo ele, a dificuldade está em impedir que essas lideranças mantenham contato com o exterior, devido à entrada recorrente de celulares.

Ele cita como exemplo o modelo adotado no Chile, onde penitenciárias têm bloqueio total de sinal telefônico, mesmo estando próximas ao Tribunal de Justiça. Fidelis também apoia a separação de presos conforme seu envolvimento com o crime organizado, pois isso reduz a tensão entre os detentos e facilita a gestão do sistema.

Facções mantêm o controle mesmo com lideranças presas

De acordo com o promotor Adriano Roberto Alves, do Gaeco, mais de 90% das lideranças das facções em Mato Grosso já estão atrás das grades. No entanto, isso não impediu que continuem comandando suas organizações, devido aos privilégios que ainda mantêm, como visitas íntimas e momentos de convívio que facilitam o repasse de ordens.

Para o promotor, seria necessário isolar completamente esses líderes, restringindo até mesmo o contato com visitantes. Além disso, ele chama a atenção para a urgência de um trabalho social voltado aos jovens vulneráveis, que são facilmente cooptados pelas facções devido à falta de oportunidades de estudo e trabalho.

Sistema prisional é berço e base das facções

Frederico Murta, delegado da Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core), afirma que a relação entre o crime organizado e o sistema prisional é antiga e ainda muito forte. As duas principais facções do país — Comando Vermelho e PCC — surgiram dentro de presídios e continuam usando o ambiente carcerário como base de operações.

Segundo o delegado, as facções estão em constante adaptação, buscando sempre novas formas de agir e lucrar. O recrutamento de menores é uma das estratégias mais utilizadas, já que a legislação penal para adolescentes é mais branda, o que os torna “peças valiosas” para o crime.

Murta ressalta que a segurança pública enfrenta os efeitos de diversos problemas sociais, como a falta de educação, saúde e infraestrutura. Ele defende que o combate às facções deve ir além da repressão policial e envolver políticas públicas que atuem nas causas profundas da violência.

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