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Jovens trocam álcool por medicamentos para ansiedade em busca de facilidade para socializar

Uso sem acompanhamento médico cresce nas redes sociais e preocupa especialistas pelos riscos de dependência, efeitos colaterais e agravamento da ansiedade

🕒 Publicado em 22/08/2026 às 09:18

Para alguns jovens adultos, a ideia de sair para uma festa sem consumir álcool deixou de significar apenas escolher uma bebida diferente. Em meio ao crescimento dos casos de ansiedade social, medicamentos de uso controlado passaram a ser vistos por parte dessa geração como uma forma de relaxar, diminuir a insegurança e facilitar a interação com outras pessoas.

O fenômeno é retratado em um levantamento da BBC que acompanha histórias de jovens que passaram a utilizar medicamentos como pregabalina e propranolol com finalidade recreativa ou para enfrentar situações sociais. O problema é que, em muitos casos, as substâncias são adquiridas sem receita e utilizadas sem acompanhamento profissional.

Um dos casos apresentados é o de Matt, nome fictício de um jovem de 22 anos do norte da Inglaterra. Ele conta que recorria ao álcool até passar mal porque tinha dificuldades para conversar e participar de encontros sociais. Há cerca de dois anos, passou a utilizar medicamentos que descobriu nas redes sociais como alternativa às bebidas alcoólicas.

Segundo ele, as substâncias diminuem os pensamentos ansiosos e proporcionam uma sensação de euforia, tornando mais fácil conversar e permanecer em ambientes sociais. O jovem afirma que, dessa maneira, consegue evitar a ressaca provocada pelo consumo excessivo de álcool.

Quando o remédio deixa de ser tratamento

Especialistas ouvidos pela BBC alertam que a utilização desses medicamentos fora das indicações médicas pode trazer consequências sérias.

O uso em doses elevadas ou sem supervisão pode provocar efeitos perigosos e, em determinadas circunstâncias, até levar à morte. A utilização prolongada também pode resultar em dependência, fazendo com que a pessoa passe a acreditar que precisa da substância para enfrentar situações consideradas comuns.

Outro ponto de preocupação é que o comportamento pode se expandir. O que inicialmente seria apenas um medicamento antes de uma festa pode passar a ser utilizado em encontros amorosos, reuniões familiares, trabalho, apresentações e outras situações do cotidiano.

Para psicólogos, esse processo pode enfraquecer gradualmente a confiança da pessoa em sua própria capacidade de lidar com a ansiedade sem recorrer a substâncias químicas.

Geração Z e o movimento de redução do álcool

A mudança também está relacionada a um comportamento mais amplo entre jovens adultos: a redução do consumo de bebidas alcoólicas.

Uma pesquisa realizada pela organização Drinkaware apontou que 26% dos britânicos entre 18 e 24 anos não consumiam álcool, contra 7% em 2012. Esse movimento ajudou a popularizar o termo “geração sóbria” para descrever parte da Geração Z.

O problema é que a busca por alternativas consideradas mais saudáveis pode abrir espaço para uma nova forma de consumo de substâncias.

Nas redes sociais, medicamentos e combinações de diferentes produtos são apresentados por alguns influenciadores como maneiras de relaxar, socializar e evitar os efeitos desagradáveis do álcool. Esse conteúdo pode contribuir tanto para a popularização quanto para a facilidade de acesso às substâncias.

Pregabalina chama atenção dos especialistas

Entre os medicamentos que aparecem com frequência nesse contexto está a pregabalina, utilizada legalmente para determinadas condições, como epilepsia e dor neuropática.

Segundo dados apresentados na reportagem, um estudo publicado na revista Nature Communications estimou que o consumo mundial da substância mais que quadruplicou entre 2008 e 2018.

Ao mesmo tempo, aumentaram as mortes relacionadas ao medicamento. Na Inglaterra e no País de Gales, a pregabalina foi mencionada em 2.360 certidões de óbito relacionadas a envenenamento por medicamentos entre 2020 e 2024, ante 768 registros entre 2015 e 2019.

Na Inglaterra, a substância passou a ser classificada como droga controlada de Classe C em 2019. Mesmo assim, continua sendo utilizada legalmente sob prescrição para diferentes finalidades médicas.

Redes sociais ajudam a alimentar o fenômeno

A internet aparece como um dos principais caminhos pelos quais esses jovens conhecem as substâncias.

A reportagem relata que influenciadores passaram a falar abertamente sobre determinadas combinações de medicamentos para reduzir a ansiedade social. Em alguns casos, as próprias redes também são utilizadas para facilitar a compra de produtos sem receita.

Esse cenário preocupa especialistas porque medicamentos adquiridos em fontes não regulamentadas podem não apresentar as mesmas garantias de qualidade, composição e segurança dos produtos comercializados legalmente.

Além disso, o consumidor pode não saber exatamente o que está ingerindo, aumentando o risco de intoxicações e outros problemas.

O preço também influencia

Outro fator que ajuda a explicar a procura é econômico. Para alguns usuários, medicamentos comprados ilegalmente podem custar menos do que uma noite consumindo bebidas alcoólicas.

Matt, por exemplo, afirma gastar apenas uma pequena quantia com as substâncias que utiliza para sair à noite. Essa diferença de preço reforça, segundo ele, a percepção de que a alternativa seria mais vantajosa.

Há ainda uma percepção entre alguns usuários de que um medicamento seria automaticamente mais seguro que o álcool por ter sido desenvolvido para uso médico.

Especialistas, porém, fazem uma ressalva importante: o fato de uma substância possuir finalidade terapêutica não significa que seu uso recreativo ou sem acompanhamento seja seguro.

Dependência pode começar de forma silenciosa

Um dos maiores desafios apontados pelos pesquisadores é identificar quando o uso ocasional começa a se transformar em dependência.

Segundo o pesquisador Liam Knowles, pessoas que mantêm emprego, relacionamentos e uma rotina aparentemente normal podem não reconhecer que desenvolveram dependência química. Isso ocorre porque existe uma visão equivocada de que o vício só existe quando a vida da pessoa está completamente desestruturada.

O relato de outros jovens entrevistados mostra como o consumo pode se expandir. Uma substância inicialmente utilizada em festas pode passar a ser consumida antes de provas, apresentações, reuniões e até durante o trabalho.

Em um dos casos relatados, a interrupção do medicamento foi acompanhada por ansiedade intensa, depressão e pensamentos suicidas.

Menos álcool não significa mais segurança

A redução do consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens pode representar uma mudança positiva quando associada a escolhas mais saudáveis. Porém, substituir o álcool por medicamentos utilizados de maneira inadequada não elimina os riscos.

Especialistas destacam que medicamentos como pregabalina e propranolol podem ter efeitos adversos quando utilizados em doses inadequadas. A pregabalina, especialmente em quantidades superiores às prescritas, pode provocar relaxamento e euforia. Já o uso inadequado de propranolol pode causar tontura, desmaios e redução perigosa da frequência cardíaca.
O alerta principal, portanto, não está apenas na substância escolhida, mas na forma como ela é utilizada.

A busca por uma solução rápida para enfrentar a ansiedade social pode acabar criando uma dependência ainda maior e dificultando o desenvolvimento de estratégias próprias para lidar com situações sociais.

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